terça-feira, 1 de maio de 2012

Pessanha e o exotismo


Camilo Pessanha e o exotismo

                                                                                                          
                Uma das últimas incursões de Pessanha na escrita foi uma conferência que pronunciou sobre Camões, por ocasião do 10 de junho, em 1924 – menos de dois anos, portanto, antes da sua morte, que ocorreria em 1o de março de 1926.
               Intitulada “Macau e a gruta de Camões”, aborda uma questão da maior relevância para o poeta: as condições de existência e manutenção da capacidade poética no exílio.
               Não são muitos os textos em prosa de Pessanha em que ele reflete sobre poesia. Reduzem-se basicamente a três: uma resenha de um livro de Alberto Osório de Castro, o resumo de uma conferência dedicada à estética chinesa, e esta.
               A resenha do livro de Alberto Osório de Castro mereceu atenção crítica, num belo ensaio de Gustavo Rubim, intitulado Experiência da alucinação – Camilo Pessanha e a questão da poesia. Rubim também estudou a conferência sobre a estética chinesa. Mas o breve texto da conferência de 1924 (que tem apenas cinco páginas) permaneceu praticamente sem comentário analítico, apesar de se encontrar uma curiosa e muito particular definição do que sejam lirismo e inspiração poética.
               Antes, porém, para melhor situar, no arco da vida e da reflexão de Camilo Pessanha, o texto que hoje nos interessa, devemos fazer um recuo de exatos 30 anos. Devemos voltar a abril de 1894. Pessanha acabara de chegar a Macau. Ainda deslumbrado com a diversidade oriental e esforçando-se por ambientar-se na colônia, escreve a Alberto Osório de Castro uma carta na qual expõe uma percepção da passagem do tempo e do deslocamento para longe da terra natal que permitirá melhor compreender o texto da conferência sobre Camões.
               Como não será possível alongar-me, destacarei apenas dois pequenos trechos da carta.
               Eis o primeiro deles:
               E eu, que tinha saudades de quanto ia deixando, até de Barcelona, onde estive cinco dias, até de Colombo onde estive duas horas. Porque a gente é bem um grumo de sangue, que por toda a parte se vai desfazen­do e vai ficando.[1]

               O afastamento impõe o esvaziamento, como a passagem do tempo também o impõe: ao longo do duplo percurso, temporal e espacial, esse coágulo que somos nós perde um pouco de si, impregna aquilo que nos impressionou ou nos seduziu: algo se desprende de nós e fica para trás, e nós nos vamos assim dissolvendo ao longo dos eixos do tempo e do espaço. É o sentimento decorrente dessa percepção que o poeta denomina genericamente de saudade e que tem, no contexto em que surge, uma forma específica: menos do que uma perspectiva de recuperação de um bem perdido, é a consciência de que não é possível apreender as experiências e mantê-las, não é possível incorporá-las à subjetividade.
               A noção básica que informa essa passagem é a da perda. A própria memória, vista pelo prisma da metáfora do grumo de sangue, se reduz assim a uma espécie de consciência dolorosa da perda inevitável. Ter memória das experiências, parece, é possuir ao mesmo tempo o desejo pela vida que se escoa e a consciência do desfazimento gradual implícito em toda experiência sensível e afetiva.
               Essa mesma percepção percorre boa parte dos poemas de Camilo Pessanha, e foi objeto de um estudo que em outro tempo realizei e que não cabe agora resumir.[2]
               Para o que interessa aqui, o importante é considerar esses trechos a partir da questão do exílio, do afastamento da terra natalque era o tópico daquela carta em que a viagem para o Oriente fornece a matéria principal.
               Ora, enquanto experiência de exílio, não há aqui uma saudade indeterminada, e sim uma atualização muito concreta da nostalgia, que potencializa a sensação de deslocamento e o desejo de retorno.
               É em função da nostalgia que devemos observar o ­apego inesperado aos lugares pelos quais passa, pois o que vem para primeiro plano é sempre a percepção do afastamento. Como se quisesse reter o movimento de distanciamento da pátria, o poeta se agarra emocionalmente às escalas dessa navegação para o outro lado do mundo e assim sente saudades inexplicáveis. É, portanto, por uma espécie de contágio que a partida desses lugares sem conteúdo real afetivo lhe vai despertar o mesmo sentimento com que se afastara da terra natal, no começo do percurso.
               A segunda passagem da mesma carta permite completar o quadro:

               Ai, meu pobre amigo: eu bem sei o quanto aí terá sofrido. Havemos de morrer assim: o Alberto Osório por uma espécie de cobiça, eu por uma espécie de avareza.[3]

               Alberto Osório de Castro é aí associado ao apetite, à vontade de posse e de conquista. É um contraponto perfeito a Pessanha, que se retrata como aquele que tenta desesperadamente acumular, guardar em si os afetos e as sensações, protegê-los inutilmente do desfazimento a que está fatalmente condenado o sujeito ao longo da vida e da viagem.
               O tema reaparece de corpo inteiro, e agora com todas as suas implicações, na conferência de 1924.
               Essa fala, de que temos apenas o resumo, iniciou-se com a consideração da tradição de que Camões esteve em Macau e ali escreveu Os Lusíadas. Pessanha delcina de discutir a base histórica da tradição. Considera que uma tradição é como uma planta viva, enraizada no sentimento popular, do qual tiram a seiva que a mantém. Acima da verdade histórica, uma tradição é um símbolo vivo e adequado à expressão de um conceito. Uma realização estética, portanto. Por isso, sua conferência se propõe não a discutir a sua procedência factual, mas sim se o seu motivo tem grandeza e propriedade e se são equilibrados e harmônicos os elementos que a compõem.
               Para Pessanha, o ponto evidente é a grandeza de Camões. Cumpre-lhe, então, como primeiro passo de análise, verificar se os demais elementosisto é, principalmente, Macau – prestam-se a formar, com a grandeza do poeta e dos feitos heróicos que ele cantou no seu poema, um conjunto coerente e significativo.
               Para afirmá-lo, Pessanha lança mão de dois argumentos. O primeiro é autodemonstrativo: o território português na China é o lugar mais remoto a que chegaram e em que se instalaram os portugueses – ou seja, a localização de Macau se harmoniza com o assunto do poema camoniano, que canta a epopéia marítima das descobertas orientais. Já o segundo tem complexidade maior e se embasa numa postulação surpreendente, de alcance amplo. É o que nos interessa mais de perto. Eis:

               [...] a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes, no húmus do solo natal. É por isso que os grandes poetas são em todos os países os supremos intérpretes do sentimento étnico. Toda a poesia é, em certo sentido, bucolismo: e bucolismo e regionalismo são tendências do espírito inseparáveis. Notáveis prosadores (basta lembrar, dentre os contemporâneos, Lafcadio Hearn, Wenceslau de Moraes e Pierre Loti) têm celebrado condignamente os encantos dos países exóticos. Poeta, nenhum.

               Para Pessanha, a inspiração não apenas radica na emotividade. É emotividade. Mas emotividade modalizada, moldada pela “educação”, que lhe dá uma direção, limitação ou pré-configuração específica. A forma dessa modalização da emotividade, que a transforma em capacidade de poesia, não é, porém, como a palavra “educada” poderia fazer supor, a inserção numa tradição literária. Não estamos aqui no mesmo universo em que se moverá, por essa época, a reflexão de T. S. Eliot ou de Ezra Pound. O que faz a inspiração poética, para Camilo Pessanha, é a sua determinação pela experiência coletiva sedimentada num dado espaço e enquadramento natural – e que comparece, no seu texto, na metáfora vegetal do profundo enraizamento no “húmus da terra natal”.
               Para Pessanha, portanto, a condição necessária para o aparecimento da poesia não é a simples integração na Natureza ou a sua contemplação embevecida. Pelo contrário, seu texto caminha no sentido de reduzir a abrangência do “natural”. Primeiro, pela identificação do “naturalcom o bucólicoisto é, limitando a natureza eficaz para a poesia aos elementos que caracterizam a forma de vida das populações agrícolas, num território delimitado –; segundo, pela assimilação do bucolismo ao regionalismo – o que promove uma segunda particularização do natural, restringindo ainda mais a sua eficácia e determinando-o, no âmbito do texto, como lugar de origem.
               A postulação de que a poesia é regionalismo é ainda da maior importância porque é com base nela que Pessanha irá assentar, na seqüência, a especificidade da forma portuguesa de ser poeta. E ele o faz da seguinte maneira: se toda poesia se define, de alguma forma, como vivência do bucólico e do regional, e se a emoção poética em geral se orienta pelas mesmas forças que determinam a constituição de um caráter étnico específico, a inspiração poética portuguesa se vai caracterizar e distinguir por só vigorar em vinculação direta com o torrão natal.
               Para um português, assim, o afastamento da origem é uma ameaça concreta à permanência da inspiração poética, pois esta só pode vigorar se, por meio da evocação, a sensação de desenraizamento, de exílio e afastamento da terra natal for eliminada ou posta em suspenso. Daí procedem a importância e a singularidade de Macau, entre os territórios habitados pelos portugueses. Sendo ela a única possessão situada no hemisfério norte, é ela a única que tem as estações do ano sincrônicas com as da metrópole. Por conta disso, em Macau os eventos religiosos e culturais têm o mesmo enquadramento sazonal que em Portugal, o que teria, segundo Pessanha, uma importante conseqüência.

               [...] em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal menos freqüentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas [...], das águas amarelas do rio e da rada, onde deslizam as lentas embarcações chinesas de forma extravagante [...], e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão da terra portuguesa.

               À primeira vista, nada pareceria mais difícil, que Macau pouco tem de português senão as casas e o contorno dos telhados. Para produzir-se a ilusão de estar em Portugal, de fato, é preciso abstrair-se de tudo o que é chinês – de tudo o que, enfim, é Macau.  Ou seja, é preciso ser capaz de obliterar os dados dos sentidosnão ver as inscrições, não perceber os odores tropicais, não ouvir as falas e as vozes, não contemplar os barcos. Mas, ainda assim, ali é fácil – isto é, é possível, por oposição às colônias outras, situadas no hemisfério sulproduzir a alucinação do retorno, porque o enquadramento sazonal do calendário afetivo e cultural é um potente estimulador da nostalgia, que acende a imaginação e produz a alucinação de retorno à terra natalcondição necessária para a inspiração poética portuguesa.
                Descobre-se, então, a primeira justificativa para a escolha de Macau como lugar de culto de Camões e do povo português. Ao afirmar que ele ali teria escrito o poema nacional português, a tradição celebra o gênio que, mesmo nas condições adversas do exílio prolongado, conseguiu manter viva, dentro de si, a pátria distante. Conseguiu, portanto, manter produtiva a sua inspiração.
               Retomando a metáfora vegetal com que explicara não só o vigor das tradições, mas a própria inspiração poética, Pessanha celebra nestes termos o poeta quinhentista:

               [...] o gênio de Camões, alimentado embora exclusivamente da seiva que trouxera da Pátria – da imagem viva da sua paisagem, da lembrança minuciosa e fiel dos seus costumes, da sua história, das suas lendas, das suas crenças, da sua cultura científica e literária –, teve pujança bastante para triunfar dos meios mais adversos, para resistir aos mais implacáveis fatores de perversão e de atrofia.

               Essa homenagem a Camões, ao fazer dele um símbolo da energia da nação no seu apogeu, levanta imediatamente a questão da continuidade – do império português e do sentimento poético português – isto é, a comparação entre o passado e o presente:

               [...] mas a terrível ação depressiva do clima e do ambiente físico e social dos países tropicais, se não tiveram poder contra a assombrosa vitalidade criadora do poeta máximo, têm-no, todavia, [...] para esterilizar em cada um de nós outros, os pigmeus que a quatro séculos de distância o contemplamos, o pouco de aptidão versificadora que algum tivesse, mas ainda para destruir, mesmo nos melhor dotados, a comezinha parcela de imaginação de que é indispensável dispor quem intente evocar a estatura do gigante, o seu esbelto perfil e a sua figura augusta.

               A oposição está dada, e a explicitação do paralelo direto entre o orador e o homenageado, enquanto poetas, é, assim, inevitável:

               [...] quem estas linhas escreve – diz Pessanha – teve, por várias vezes (há quantos anos isso vai!), deambulando pelo passeio da Solidão, a ilusão, bem vivida apesar de pouco mais duradoira que um relâmpago, de caminhar ao longo de uma certa colina da Beira-Alta, muito familiar à sua adolescência.
              
               Nos termos do quadro conceitual em que se move a conferência, o que Pessanha afirma é que, enquanto estava alimentado pelaseiva que trouxera da Pátria – da imagem viva da sua paisagem, da lembrança minuciosa e fiel dos seus costumes, da sua história”, pudera ele próprio conseguir a ilusão indispensável à criação poética. Mas essa seiva, diferentemente do que ocorrera com Camões, se esvaíra. “Há quantos anos isso vai!” é a exclamação dolorosa que abre caminho à confissão do fracasso e ao paralelo do poeta moderno com o antigo.
               A contraposição com Camões não se traça apenas no nível individual. O poeta de outrora pudera manter-se espiritualmente, por anos a fio, apenas com as lembranças da pátria ausente porque vivera num outro tempo, no qual a “energia da raça” era tão exuberante a ponto de despender-se por “todo o imenso império português” que então se construía.  Já o tempo a partir do qual o poeta moderno dirige o olhar para o passado é visto sob o prisma da decadência, da ausência daquela energia que caracterizara os anos de 1500. Sente-se Pessanha num mundo e num momento em que nem a “raça” é pródiga de energias, nem (talvez por isso mesmo) o poeta é capaz de prover-se de uma suficiente reserva de lembranças e memórias que lhe permitam manter-se alimentado, quando desligado do ambiente e da paisagem portuguesas.
               Ao montar essa equação, na qual a cada momento na história da nação corresponde um tipo de poeta, Pessanha acaba por fazer, da sua obra dispersa e da qual cuidou tão mal, uma espécie de equivalente gorado da obra de Camões. É como se ele se representasse como um não-Camões, ou melhor, como o Camões possível nos tempos da decadência – para o qual até mesmo a evocação da grandeza do passado é um desafio.
                Se nos lembrarmos agora daquela carta de 1894, perceberemos que a conferência forma com ela um conjunto de coerência metafórica, contra o qual os poemas aqui rapidamente comentados ganham relevo e densidade.
               De fato, a metáfora da avareza preludiava a formulação de 1924, segundo a qual a capacidade poética depende da manutenção da seiva haurida em contato com a terra natal; e a imagem do grumo de sangue a da esterilidade correspondente ao esvaziamento da seiva trazida do húmus da terra natal.
               Entretanto, seria simplificar muito a questão do exotismo em Camilo Pessanha reduzir a China a obstáculo à criação poética. E atribuir ao afastamento da pátria (a que na verdade regressou várias vezes) a sua pequena produção poética.
               Embora não restem muitos documentos da atividade sinológica do poeta, sabemos que ele se dedicou longamente ao estudo da língua, da literatura e da arte chinesa.
               Durante muito tempo, por conta das inimizades que criou em Macau, a imagem que Pessanha traça de si mesmo como poeta estendeu-se à totalidade da sua vida pessoal e intelectual. Assim é que a imagem ainda corrente que se faz do poeta é de um abúlico, viciado em ópio, incapaz de ação produtiva desde os primeiros tempos de sua chegada à China.
               De nada valeram, contra essa imagem, a publicação de algumas das traduções que fez do chinês, nem a recolha de textos esparsos por João de Castro Osório, no volume China.
               E como após a sua morte desapareceram os documentos que ficaram em seu gabinete de trabalho, embora tivessem sido doados, como aliás a sua grande coleção de arte, ao Estado português, perderam-se os frutos de um longo e constante trabalho intelectual que, se tivesse vindo a público, tornaria Pessanha, no que diz respeito à divulgação da cultura clássica chinesa, um equivalente do que Wenceslau de Moraes foi para o Japão.
               Até há pouco tempo, só tínhamos, além da sua coleção que hoje finalmente está dada a público, testemunhos indiretos da dedicação de Pessanha aos estudos chineses. O mais impressionante é o de Carlos Amaro, que em 1926 afirmava ter visto uma quantidade enorme de trabalhos sobre a língua, literatura e poesia chinesas: “mais de sete mil páginas [...]escritas em letra quase microscópica, da última vez que Camilo Pessanha esteve em Lisboa”.
               Hoje, entretanto, temos ainda o depoimento de Pessanha, em cartas ao mesmo Carlos Amaro, finalmente dadas a público. Devo a sua leitura à inestimável generosidade de Daniel Pires – a quem devo tanto – que mas enviou à medida que as ia transcrevendo e a quem todos temos de agradecer por podermos aqui, em primeira mão, delas tomar conhecimento.
               O primeiro texto que gostaria de ler é um trecho de carta datada de 8 de março de 1912. Pessanha está ameaçado de transferência para outra parte do mundo colonial, ou de perda das funções que detinha em Macau. O episódio é conhecido e foi interpretado até hoje como uma represália ao seu “achinesamento”, entendendo por isso o seu concubinato com uma chinesa e o vício do ópio, que o tornara incapaz para o trabalho.
               Mas o que nos diz o poeta nos permite formar uma ideia muito diferente. Eis o que escreve a Carlos Amaro:

Em quase vinte anos de Macau, fui-me adaptando ao meio por um trabalho penível, embora em parte inconsciente, que me incapacitou para ser qualquer coisa fora daqui! São quase vinte anos de estudo, mais ou menos assíduo, da língua chinesa, dos costumes chineses, da arte chinesa. A língua, principalmente desde que cheguei aqui a última vez, há três anos, tenho-a estudado brutalmente, – no furor de me absorver fosse no que fosse, para ver se conseguia distrair-me de tantas desgraças a que não posso dar remédio e que são a minha obsessão.
                        Abandonei esse estudo há quatro meses, mas temporariamente e por o serviço de juiz me não deixar tempo para ele. Por sinal que andava então empenhado em concluir a tradução em prosa, quase acabada, de um formosíssimo cancioneiro elegíaco da dinastia Ming, – única e minúscula obra que eu desejaria deixar impressa, ou, pelo menos, completa, como lembrança da minha gratidão, àqueles a quem mereceram piedoso interesse as imperfeições da minha alma e as angústias da minha vida.
                        Por outro lado, do pouco que ganho, o que me tem sobrado dos gastos diários indispensáveis, tenho-o empregado na aquisição de uma cangalhada, – cacos e bonecos chineses –, que, provavelmente nunca terei dinheiro para transportar para aí, apesar de ser meu máximo desejo que por minha morte ficasse guardada em algum dos museus nacionais. Sair daqui nesta ocasião seria renunciar para sempre à posse dessa pobríssima [sic] colecção que é quase a única consolação dos meus olhos e da minha alma. Nada vale pecuniariamente (quando muito uns dois contos de réis, aqui onde alguns advogados, levando vida lauta, têm feito fortuna em três anos) – mas custou-me, a ajuntar, enormes sacrifícios de toda a ordem e representa as minhas economias e o meu trabalho de quase toda a vida.
                        Ora tudo isso, – escrita chinesa, poesia chinesa, arte chinesa –, de que poderiam servir-me fora daqui? E que outros objectos novos poderiam já agora ocupar-me o espírito, em outras terras, velho, doente e desalentado?

               Na sequência, em 21 de setembro do mesmo ano, volta ao assunto:

Como sabe, estou aqui há quase vinte anos, tendo durante esse tempo aplicado exclusivamente a este meio exótico o esforço da minha inteligência. Foi, como imagina, um trabalho violento e penível de adaptação, e a imposição de um degredo perpétuo, envolvendo a renúncia a quaisquer possibilidades de uma vantajosa situação burocrática, e a mais dolorosa para um afectivo como eu, aos encantos desse país que tão apaixonadamente eu amo, e a toda a comunhão sentimental, de que a minha alma é tão sedenta. Não era um sacrifício voluntário: era a resignada aceitação do destino que se me apresentava.
                        Claro está que à minha vida precisava de dar um objectivo – sob pena de morrer de tristeza. E qual outro poderia ser aqui senão estudar a língua chinesa, os costumes chineses, a arte chinesa? A solidão intelectual e moral nestes meios é absoluta. Para aqui só vem daí a ínfima escória... Tenho, pois, estudado com furor, até onde mo permitem as minhas forças escassas.
Aprendi a falar a língua chinesa (falo correntemente o dialecto cantonense), e, um pouco, a ler e escrever. Tenho meia dúzia de traduções, que são actualmente o único escrito meu que desejaria ver publicado. É claro que tudo isto, que é nada mas me tem custado a vida, me seria fora daqui absolutamente inútil: prende-me, pois, naturalmente a este remoto exílio.
Mas há mais: do pouco que por aqui tenho ganho, o que me tem sobejado das despesas indispensáveis, tem sido gasto, integralmente, em uma colecção de arte chinesa. Não valerá talvez dois contos de réis, mas é quanto eu possuo. Para onde havia eu de ir, carregado com essa cangalhada, mesmo quando tivesse, que não tenho, dinheiro para o transporte e para direitos de alfândega?


               E finalmente, em 22 de dezembro do mesmo ano de 1912, escreve:

Quanto a mim próprio, cá vou continuando a vegetar, em uma sonolência vagamente dolorosa, que não se distingue da imbecilidade. Desde que deixei a vara de juiz, é decorar, decorar letras chinas. Bem desejaria publicar um dia meia dúzia de pequenas traduções; mas a empresa, a ser a coisa como eu a tenho esboçada, é cheia de dificuldades.
Um médico daqui publicou há dias um folheto, com um prefácio ou não sei quê rabiscado por mim. A borracheira é, porém, de tal jaez que não me atrevo a mandá-la a ninguém.

               Pessanha, como Moraes, sentia o Oriente como exílio e como “suicídio moral” (a expressão é deste último). Como o autor de O Bon-Odori, nunca trocou a sua alma. Como ele, dedicou-se ao aprendizado da língua, da cultura e da civilização antiga com a qual se defrontou. Ao prosador foi possível relatar as suas impressões, à medida que se aprofundava na vivência da cultura estrangeira. Ao poeta, o caminho que se abriu foi outro: o estudo concentrado da língua, da cultura e da poesia e, principalmente, a tradução.
               O que os caracteriza a ambos – e que se encontra nos muitos livros de Moraes e nos poucos textos de Pessanha – é uma experiência não da troca de alma ou de cultura, mas justamente dos limites da integração – a Moraes denominou, no vocabulário do tempo, incompatibilidade ou ódio entre as raças – que mesmo a sua simpatia era incapaz de eliminar. E a que Pessanha, contemplando na decadência das cidades portuárias chinesas um espelho da decadência pátria, reagiu com desprezo pelo presente e amor pelo passado. A mesma atitude que talvez os tenha movido a ambos na relação com a pátria distante e no entanto sempre presente.
               Sobre esse ponto temos muitas passagens de Moraes, nas quais ele afirma que vive apenas para a saudade. Portugal, como o próprio Japão de O-Yoné e Ko-Haru, é uma idealização restrospectiva, uma construção espiritual sobre a dor do deslocamento e da falta. Mas de Pessanha pouco havia no mesmo sentido, embora fosse claro o seu desprezo pela situação atual do país. Sobre esse ponto, em breve, quando forem publicadas as cartas a Carlos Amaro recentemente incorporadas ao espólio, muito mais haverá que dizer.
               Não é possível agora estender-me mais sobre isso, de modo que termino com a transcrição de mais um trecho, desta vez de uma carta de 10 de julho de 1916, escrita logo após o retorno da que seria sua última viagem a Portugal:

Ao menos aqui, restituído aos meus hábitos de solidão espiritual, nada me vem roçar pela alma ulcerada, a exacerbar-lhe as dores. O ambiente é-me benigno, porque me é familiar: acha-se impregnado de mim próprio, como eu dele. Foi um longo e penoso trabalho de adaptação, mas que se completou: agora todas as perturbações desse equilíbrio estabelecido redundam em sofrimento. Posso contar entre os mais horríveis da minha vida esses cinco meses de angustiada agitação em que aí escabujei.

               O sinal agora está invertido: a estada em Portugal não abastece de seiva, não tem valor nutritivo para a inspiração. Pelo contrário, produz apenas a dor do desajuste. Se a ilusão de estar em Portugal é produtiva de poesia, ela nada tem a ver com a experiência de lá estar, concretamente. O que fica da leitura dessas cartas é que o contato com a pátria real é a maior experiência deceptiva experimentada pelo poeta, frente à qual o exílio chinês e a solidão espiritual, durante a qual dedica-se ao estudo do chinês, à coleção de arte e à tradução, lhe aparece como um estado próximo da felicidade.
               Daí a angústia com que se expressará em 1924 a propósito da lembrança de Camões, quando celebrará, afinal, não apenas a lembrança do poeta desaparecido quinhentos anos antes, mas também a sua incapacidade de, face ao impacto da realidade do contato com o país decadente e hostil, recorrer outra vez, nos anos que se seguiram, à memória e à saudade como fonte de poesia.
               O que essas cartas recentemente reveladas nos permitem, portanto, é vislumbrar outro Pessanha, desta vez muito mais próximo do outro solitário, que se internara em Tokushima três anos antes, para nunca mais de lá se retirar. Como Pessanha, aliás, fará em Macau nesse ano de 1916, esquecendo-se mesmo da Clepsidra, que será editada quatro anos depois e dele não merecerá senão uma lembrança atrasada, distante e formal.


[1] Carta datada de 30 de abril de 1894, reproduzida em Camilo Pessanha, Cartas, transcrição e organização de Maria José de Lancastre. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, p. 47.
[2] Nostalgia, exílio e melancolia – leituras de Camilo Pessanha. São Paulo: Edusp, 2001.
[3] Ib., p. 46.