quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Editoras universitárias


Editoras universitárias para quê?

* texto lido no dia 06 de novembro de 2012, no Simpósio Internacional Livros e Universidades - USP

Primeiramente, gostaria de agradecer aos organizadores o honroso (mas talvez injustificado) convite para estar nesta mesa e participar deste grande congresso.

Digo que talvez seja injustificado porque não sou nem estudioso da história do livro, nem editor de formação. Nem mesmo tenho com os livros uma relação que vá além da muito elementar: quero-os bem escritos e bem editados, legíveis, bonitos e práticos. Nada mais. Nem mesmo sou ou fui colecionador e as edições antigas só me interessam quando preciso da informação que elas trazem.

De um ponto de vista favorável, poderia dizer que não tenho o fetiche do livro. De um ponto de vista desfavorável, dispenso-me de dizer o que talvez alguns profissionais do livro possam estar pensando ao ouvir estas declarações sinceras.

Mas é mesmo assim: fui formado leitor e autor de livros. Mas não editor, e a história do livro nunca me interessou além da generalidade da formação geral. Muito menos me entusiasmam os aspectos propriamente contábeis do negócio dos livros.

Portanto, minha presença aqui só se justifica por um motivo: ser eu há dez anos o diretor da Editora de uma das mais importantes universidades brasileiras, a Unicamp, e ter feito lá o melhor trabalho que pude.

Entretanto, o que penso é que não venho aqui como exemplo de sucesso, mas de problema. De um problema das editoras universitárias, que eu vivi e vivo cotidianamente, e sobre o qual tenho refletido, premido pela necessidade.

O sucesso e o problema, na verdade, são faces da mesma moeda e se deixam ver facilmente pelo meu caso: se a Editora da Unicamp pôde, nestes 10 anos, firmar-se como referência na edição universitária brasileira, também é verdade que pôde, num período breve de quatro anos – anterior a este –, perder totalmente a identidade e a relevância. E pode ser que de uma hora para outra – como tantas neste país – volte para o limbo da burocracia, do localismo ou do simples desinteresse.

Quero dizer: o problema mais frequente das editoras universitárias no Brasil é estarem sujeitas ao fluxo e refluxo das correntes políticas no interior das universidades e, principalmente, serem dirigidas por professores universitários sem formação editorial.

Digo isso com muita sinceridade, repito, apresentando-me como caso típico, pois sou um editor que, até sê-lo, nunca tinha olhado de modo operacional para um livro e era muito ignorante das etapas editoriais que não aparecem diretamente para um autor.

Essa constatação respondeu pelo pânico ao perceber a dimensão da tarefa. É claro que me socorri com amigos experientes – e devo referir aqui desde logo a ajuda que Plínio Martins Filho me prestou -, mas, mesmo assim, o tempo que tive de despender foi imenso. De modo que posso imaginar que, durante os primeiros anos, não só não fui um bom editor como devo ter sido um professor menos aplicado e um pesquisador menos produtivo.

E se há algo que me faz pensar se terá valido a pena é a percepção de que todo esse trabalho poderá sofrer muito, quando deixar a Editora, ou por motivos políticos ou por aposentadoria, e outro inocente professor (tão ignorante a princípio quanto eu fui) assumir o meu lugar.

 No entanto, meu trabalho deu certo. E por quê, se sou o primeiro a reconhecer o meu despreparo e as dificuldades que todos conhecem muito bem: falta de orçamento, falta de quadros profissionais, dificuldades de comercialização etc.? Não foi certamente por conta do meu esforço, a não ser num sentido. E aqui, sim, posso apresentar um exemplo de sucesso, que porém independeu de mim.

Trata-se da oportunidade que me foi oferecida de recomeçar uma editora praticamente do zero, o que me obrigou a idealizar, em primeiro lugar, os estatutos e normas. E, quanto a isso, não me sentia desapetrechado, pois a primeira coisa que me perguntei foi: por que a Unicamp deve continuar a ter uma editora – e para que servirá uma editora universitária?

Como a Unicamp é um órgão público, a pergunta se desdobrava logicamente nesta outra: por que o Estado deve assumir a atividade editorial, em vez de buscar um fornecedor do serviço no mercado?

A resposta mais simplista que circulava é a de que uma editora da Unicamp se destinaria a difundir (a dar vazão, conforme a gíria administrativa) a produção da própria Unicamp. Ora, a pesquisa realizada nos níveis iniciais da carreira acadêmica, quais sejam a iniciação científica e o mestrado, ou não tem interesse para além da sua apresentação, ou podia ser consultada em forma eletrônica. Já a produção posterior ao doutorado, nas áreas de exatas e tecnológicas, sempre se difundiu por meio de periódicos especializados e indexados. Apenas nas áreas das humanidades a forma preferencial de divulgação de pesquisa é o livro. Mas justamente nessas áreas não é difícil encontrar interesse de publicação dos trabalhos por editoras comerciais de primeira linha. Restavam os livros didáticos, mas justamente neste campo era dificílima a competição com manuais elaborados por equipes de pesquisadores e testados e aperfeiçoados ao longo dos anos. E há um fator que não pode ser desprezado: dificilmente uma editora universitária pode oferecer aos autores de bons livros didáticos de circulação ampla as mesmas condições que as editoras comerciais especializadas.

É verdade que parte dos resultados da pesquisa acadêmica que demanda a forma de livro não desperta interesse das editoras de mercado, seja porque se destina apenas a um conjunto relativamente pequeno de especialistas, seja porque o assunto não está na moda ou não ocupa um lugar importante nas preocupações do presente. Mas, do ponto de vista da divulgação dos resultados da pesquisa, esse conjunto de obras não justifica a constituição e a manutenção de uma editora: muito mais barato e eficaz, do ponto de vista da difusão, seria, para a universidade, subvencionar a publicação de obras de seus pesquisadores por editoras comerciais.

Não é, pois, para divulgar a sua produção de pesquisa que uma universidade deve criar ou manter uma editora. Fosse esse o objetivo principal, já essa editora traria uma pesada marca de origem, pois a endogenia não é um bom caminho para a qualidade, e ter como objetivo principal abrigar a produção interna tem sido o caminho curto – principalmente nas universidades sem expressiva produção científica e cultural – para o rebaixamento do interesse e da respeitabilidade do catálogo.

Uma análise rápida do catálogo das mais conceituadas editoras universitárias do país me permitiu verificar que, seja qual for a proporção de autores da casa nele representados, uma parte muito significativa dos demais títulos é constituída de livros produzidos por docentes e pesquisadores externos ao quadro da universidade a que pertence a editora.

Na verdade, a análise desses catálogos permite dividir a produção entre livros escritos originalmente em português e livros traduzidos; e, dentre os primeiros, abrem-se dois grupos principais: livros de referência para a pesquisa nos vários campos do saber e livros destinados à utilização em sala de aula.

Por meio dessa breve análise julguei possível delinear uma boa razão para uma boa universidade ter uma boa editora. Sem prejuízo da publicação da pesquisa de qualidade realizada na instituição, elas atuam de forma decisiva na composição de bibliotecas acadêmicas, por meio da publicação de trabalhos produzidos no país e do investimento na tradução de obras fundamentais para os cursos universitários de graduação e pós-graduação.

Mas é igualmente certo que as editoras de mercado também se dedicam ao segmento acadêmico. Mas aqui se delineia um segundo motivo para ter uma editora: o que distingue uma boa editora universitária de uma editora de mercado é que o argumento decisivo para a publicação de uma obra não é o retorno financeiro, mas sim o acadêmico, ou seja, o impacto da obra na consolidação, na expansão ou no aprimoramento de um determinado campo do saber.

Assim, entre uma obra de qualidade inferior que promete retorno auspicioso do investimento e uma obra de qualidade superior que, na melhor hipótese, permite prever a recuperação do investimento ao longo de um período largo de tempo, não há dúvida sobre qual a escolha de uma boa editora.

Porque o seu objetivo principal é o atendimento às necessidades da comunidade acadêmica, a editora universitária pode elaborar uma política editorial centrada no aspecto acadêmico.

Por exemplo, pode contemplar de modo diferente a publicação de obras de um campo do saber ainda em formação no país, assumindo os custos de fazer livros para leitores potenciais que só existirão a partir do momento em que um conjunto significativo de livros daquela área específica estiver disponível no mercado.

Da mesma forma, uma editora acadêmica, apoiada em pareceres especializados, pode optar responsavelmente por investir numa obra ou numa série de obras que só a médio ou longo prazo produzirão resultados, seja do ponto de vista financeiro, seja do ponto de vista científico e cultural.

Mais que isso: uma editora acadêmica não foge aos seus objetivos, nem trai os seus princípios (pelo contrário) se constatar que vários de seus títulos não produziram nenhum lucro, embora tenham contribuído para o aprimoramento do saber.

O diferencial da editora universitária se apresenta ainda com clareza quando se considera o seu catálogo de traduções.

Um livro traduzido e bem revisado por um especialista implica investimento enorme, como todos sabemos. E, no campo científico, são justamente as obras mais especializadas e mais complexas que dispõem de menor (mas não menos importante) público. De modo que, se as traduções de textos relevantes para o universo acadêmico se fizessem apenas segundo os critérios de mercado, as lacunas bibliográficas seriam muito maiores do que são hoje no Brasil.

E esse é um lugar de atuação privilegiado das editoras universitárias, pois estas não somente contam com as indicações da comunidade dos pesquisadores e professores – que conhecem as lacunas existentes –, mas também estão dispensadas de obter resultados de vendas para distribuir dividendos entre sócios ou acionistas.

Portanto, o que me parece a real razão de ser das editoras universitárias se revela, no Brasil, na forma de atuação e na função cultural e científica das editoras vinculadas às universidades públicas de excelência.

É que essas universidades têm por objetivo apenas a produção do conhecimento e a formação de profissionais para a sociedade. Elas não visam à autossustentabilidade, nem ao lucro. O custo dessa atividade formadora é considerado investimento social, atividade fim do Estado. É assim não apenas com os cursos de graduação e pós-graduação, mas também com as atividades de extensão comunitária, com o atendimento à saúde, com os museus, orquestras, rádio, TV, jornais e outros vários instrumentos de produção, conservação e difusão científica e cultural, entre os quais se destaca a Editora da universidade.

Assim, ao elaborar os estatutos da Editora da Unicamp, minha principal preocupação foi garantir que, da mesma forma como o ensino e a pesquisa devem ter como objetivo acima de tudo a qualidade acadêmica, também na editora esse objetivo central fosse o mais valorizado. Daí a criação de obrigação de dois pareceres de especialistas e a obrigatoriedade de aprovação, mediante os pareceres, pelo plenário de um amplo conselho científico.

As poucas desvantagens são evidentes, mas as vantagens compensam largamente. Se não posso, por exemplo, ir para Frankfurt e comprar os direitos de um livro qualquer, por mais que me interesse e eu creia nele, por outro lado não corro o risco de publicar qualquer coisa que não seja amplamente referendada pelos melhores especialistas.

É verdade que as boas editoras comerciais também possuem leitores. Mas não há nada que se compare, do ponto de vista da confiabilidade, ao sistema da avaliação mediante pareceres analíticos e anônimos. Ou seja, uma função na qual a boa editora universitária é insubstituível é a de estender para o mercado dos livros os critérios positivos da avaliação universitária.

E aqui se abre, finalmente, o campo para que cheguemos ao que vislumbrei e ainda vislumbro como a razão de ser das editoras universitárias, o seu lugar insubstituível: as boas editoras universitárias são lugares de autoridade cultural e científica e de seleção segundo um critério puramente intelectual.

A editora universitária não precisa concorrer com o mercado. Tampouco a universidade compete com a indústria ou a pesquisa nas corporações. Na verdade, assim como a indústria oferece formação específica e dirigida, e a universidade, formação básica e ampla, também a boa editora universitária deve, em minha opinião, estar centrada no oferecimento de produtos diferenciados, importantes não do ponto de vista da quantidade de leitores ou do retorno financeiro, mas da qualidade do público especializado e do investimento consequente em pesquisa básica.

Foram esses os princípios gerais que regeram não só a redação dos estatutos, mas também a minha gestão à frente da Editora da Unicamp.

No fundo, o que eles significam é que creio em que às editoras universitárias de primeira linha se reserva um lugar importante no sistema de trocas baseado no livro. E esse lugar insubstituível é, mais exatamente, não um lugar concorrente com as editoras de mercado, mas o lugar que elas ocupam e que ninguém mais ocupa no mercado editorial. Seu papel, do meu ponto de vista, é formar catálogos especializados, de retorno baixo ou mesmo nulo, mas de relevante impacto científico e educacional. E é também intervir no mercado de forma, por assim dizer, antimercadológica, promovendo o livro por meio de descontos, feiras e eventos realizados dentro ou fora dos campi universitários.

De modo que, se tivesse de responder agora à questão que nomeia este breve texto, e que pautou o meu trabalho ao longo destes dez anos, seria obrigado a fazer uma distinção, pois sob a denominação “editora universitária” se abriga uma enorme diversidade: pública ou privada; ligada a uma universidade de pesquisa ou a de caráter mais técnico; de alcance regional, nacional ou internacional.

Embora possa parecer elitista e radical, minha conclusão é que só vejo sentido numa editora universitária que aplique, na seleção de seus títulos, os critérios mais rigorosos de aferição da qualidade – o que nem sempre é possível, especialmente nas universidades ou institutos de vocação eminentemente regional. Se não tiver esses critérios como ponto de base, uma editora universitária pode ter justificativa local, mas será sempre apenas um sucedâneo do melhor, isto é, um lugar de vazão de produtos que não encontram guarida nem nas grandes editoras universitárias, nem no mercado editorial.

 Já as editoras ligadas às grandes universidades públicas tendem, pelo seu próprio caráter e localização, a erguer os critérios acima de outras considerações, e podem funcionar assim, num mundo de produtos abundantes, de crescimento enorme na oferta de títulos, como filtros: o que publicam e chega às prateleiras das livrarias vem com a marca da excelência acadêmica. É fácil hoje, com verbas de origem vária, pagar a publicação de uma tese ou de uma coletânea de artigos numa editora qualquer. E algumas editoras de fato se especializaram em recolher essas verbas, publicando livros que não circulam e não passaram ou não passariam pelo crivo de especialistas. Mas numa editora como as que referi, o fato de o autor possuir recursos para publicar um livro não quer dizer nada: o decisivo é a avaliação criteriosa pelos pares.

A extensão dos critérios científicos plurais e mediados por pareceres de mérito e a publicação sem intuito de outro lucro que não seja o avanço do conhecimento: estes são os diferenciais das editoras universitárias que contam. No caso delas, a pergunta “editoras universitárias para quê?” se confunde com a pergunta “universidades para quê?”. E enquanto for possível responder a esta última indagação, será possível encontrar resposta para a primeira.

De modo que, se voltasse agora às considerações com que abri este texto, o que poderia acrescentar é apenas que, sem perder de vista os ideais universitários e o método de aferição da qualidade por critérios exclusivamente acadêmicos, o que me parece essencial a fazer neste momento no Brasil é dotar as editoras universitária de primeira linha de mecanismos que impeçam a continuidade do que foi bom e o retorno do que foi mau. Ou seja, que elas tenham, além de um corpo técnico altamente qualificado e permanente (como um laboratório ou um centro de pesquisa), um conselho científico com mandatos de longo prazo e completa autonomia de decisão e implementação de projetos. Além, é claro, de orçamento compatível com os objetivos.

E aqui se juntam as duas pontas desta intervenção, pois o que eu de fato creio é que só faz sentido a existência das instituições editoriais universitárias se elas estiverem pouco sujeitas aos humores dos diretores, reitores e conselhos universitários – isto é, se ela espelharem, no seu funcionamento, formas de proteção dos avanços do conhecimento e função social, o que pauta e define os órgãos verdadeiramente científicos das universidades a que pertencem.