terça-feira, 14 de maio de 2013

José Paulo Paes - antologia



[jornal 15]

Humor/Amor/Horror


Relançamento da antologia poética de José Paulo Paes convida à reavaliação da obra do poeta recentemente falecido.



            Comprei o volume Melhores Poemas, de José Paulo Paes, selecionados por Davi Arrigucci Jr. (Global, 2000, R$ 27). É a segunda edição. A primeira saiu em 1998, ano em que faleceu o poeta. Só quando cheguei em casa e o fui colocar na estante, descobri que já o tinha na edição original. Como pude ter esquecido que o comprara? A resposta me apareceu de imediato: da mesma forma que me havia esquecido completamente de quase todos os seus versos. De fato, do que é que me lembrava? De quatro poemas, talvez cinco. No máximo meia dúzia. Alguns visuais, um estranho texto sobre um jabuti que perdera a companheira e mais um, cuja leitura me marcou, mas não por motivos literários.
Nos últimos anos, a vida de José Paulo Paes se confundia, para mim, com a sua poesia. Sobrepunha-se a ela, na verdade. Desde que, em 1992, seis anos antes da sua morte, publicou em livro um dos seus poemas mais conhecidos, "À minha perna esquerda". Era uma coisa pungente: o poeta, face à necessidade de amputação de uma perna, tinha escrito um poema carregado de ironia e morbidez. Era desses versos que me lembrava perfeitamente bem. Talvez por ter conhecido o poeta, numa das várias vezes que veio à Unicamp. Talvez porque sua análise ocupasse mais de um terço das 46 páginas do longo ensaio introdutório de Arrigucci, que precede os poemas.
Por conta dessas reflexões, decidi ler novamente a antologia e tentar perceber agora, à distância de uns poucos anos, o que são esses poemas.
Os primeiros, que o organizador selecionou de 3 livros publicados entre 1947 e 1954, são anódinos. A voz do poeta oscila entre Oswald, Bandeira, Murilo Mendes e Drummond. Arrigucci considera que, a partir de 51, o poeta já tem voz própria e está encerrada a fase da aprendizagem e busca de estilo. Pelos poemas que estão no livro, ainda me parece válido o julgamento de Drummond, em 47: "um poeta que ainda não chegara a escrever seus próprios poemas".
Apenas nos textos selecionados de Epigramas (1958) a poesia de Paes me parece apresentar uma característica que, combinada com outras, redundaria na sua marca mais pessoal. Essa característica é a revivescência do poema-piada, de tão grande voga no Modernismo. Um exemplo: "'A Clausewitz'// O marechal de campo / Sonha um universo / Sem paz nem hemorróidas."  Mas é somente a partir de Anatomias (1967) que se afirma a forma mais típica da poesia de José Paulo Paes: o epigrama composto com os recursos da poesia de vanguarda. O exemplo mais conhecido é talvez o "Epitáfio para um banqueiro", que traz, uma embaixo da outra, alinhadas pelas letras idênticas, as palavras negócio / ego / ócio / cio. Na última linha, a letra "o" cede lugar ao número zero, apresentando assim ao leitor o suposto resultado da vida do homem rico. Outro poema bem conhecido de sua autoria, que traz essas duas características (a intenção "crítica" ou "participante" e a forma "experimental") é o que se intitula "À moda da casa": "feijoada / marmelada / goleada / quartelada".
No geral, os epigramas de José Paulo Paes conciliam os procedimentos da poesia de vanguarda com uma vontade de "crítica social", já presente nos seus livros anteriores. "Empenhada", nesse sentido, sua poesia foi uma espécie de termo médio entre as duas principais forças literárias que disputavam poder acadêmico e projeção na imprensa paulista a partir do começo dos anos 60.
Com essas características (humor, "empenho social" e procedimento vanguardista) se estende o período mais longo da produção poética de José Paulo Paes, tal como ela comparece nesta antologia.
Apenas em 1992, com a publicação de Prosas Seguidas de Odes Mínimas, há uma significativa mudança de tom e de forma: é aqui que aparecem textos mais extensos, mais discursivos, em que a vontade de fazer piada ou manifestar posição política já não dominam todos os momentos do poema. Dos poemas recolhidos, "À minha perna esquerda" foi o que mais decepcionou nesta leitura. Talvez justamente por ter sido muito forte a impressão que me causou quando foi publicado pela primeira vez. Agora, nem comovente me parece, mas apenas mal realizado, mal resolvido mesmo na sua mistura de humor e horror.
Dos livros seguintes, valeu a pena reler "Orfeu", o poema dedicado ao jabuti viúvo inconsolável. Esse e um texto de Anatomias, chamado "Epitalâmio”.
Terminei essa viagem sentimental com um estranho travo na boca. Não é que José Paulo Paes me parecera, em algum momento, um grande poeta. Mas parecera, seguramente, um poeta maior do que o pequeno trovador que esta leitura, num intervalo de tão poucos anos, acabou por revelar. Claro que não posso julgar um poeta a partir de uma antologia. Nem se fosse feita por ele mesmo. Quanto mais feita se por outrem. Mas isso não elimina o descompasso entre a primeira leitura e esta que agora fiz.
Um amigo que é uma boa alma e, de vez em quando, um sábio, me disse, quando comentei com ele essa sensação desagradável, que na maturidade devemos ler moderadamente os poetas dos quais um dia gostamos, e que devemos tentar nos lembrar de como os líamos quando gostávamos deles. Disse ainda que era um bom exercício de vida, embora fosse talvez um mau princípio crítico. Neste caso, o intervalo é curto demais para que eu possa sequer tentar seguir o seu conselho. E a sensação de que é mesmo uma poesia pequena (embora tão simpática, na sua aplicação e esforço, quanto quando a li pela primeira vez) é algo que não consigo afastar do meu horizonte de leitura.

[Publicado em janeiro de 2001, no jornal Correio Popular]