segunda-feira, 15 de maio de 2017

Guerra às humanidades?

Um amigo me envia um artigo sobre um tema que tem aparecido em nossos e-mails com frequência cada vez maior: a situação das Humanidades na universidade.
Desta vez, um texto publicado no The Guardian, intitulado “Humanidades ensinam os estudantes a pensar. Onde estaríamos sem elas?”, escrito por Francine Prose.[1] A situação de fato parece dramática nos EUA, onde várias iniciativas têm sido tomadas para eliminar ou drasticamente reduzir os departamentos de humanidades nas instituições universitárias.
Mas, como ela mesma refere, ao lembrar o caso do Japão e outros, não é só lá que as humanidades estão sob ataque direto, mas em todo o assim chamado primeiro mundo. E não é novidade. Já há dois anos, por exemplo, The Observer trazia uma longa matéria, de Alex Preston, sobre “A guerra contra as humanidades nas universidades britânicas”.[2]
Quando leio textos como esses, e os que eles referem e estão disponíveis na internet, logo me pergunto se o mesmo está em vias de ocorrer no Brasil. E se teria a mesma forma.
É claro que percebo uma transformação enorme no campo das humanidades no Brasil. E já disso dei conta num texto no qual discutia, antes de as tendências que ali detectava se tornarem realidade concreta e moeda corrente, os efeitos da importação (imposição, na verdade) das formas de avaliação do trabalho acadêmico vigentes nas ciências para as humanidades.[3] E quanto ao campo específico da minha atuação universitária seria talvez desnecessário lembrar a perda da importância e a anomia crescente do que antes se designava globalmente pelo nome de “letras”.
Entretanto, não vivemos o mesmo tipo de crise. Em parte, porque nos centros de excelência no campo das humanidades a gestão acadêmica não é feita por pessoas estranhas ao meio – como nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo. Aqui, nossas universidades públicas sofrem de outro mal, talvez menor, mas com desdobramentos muito nocivos, mas que podem ser positivos do ponto de vista que aqui interessa debater: são geridas por uma equipe eleita pela comunidade.
Em princípio, acostumados à identificação de democracia com eleição e de democracia como um valor universalmente aplicado e válido em todas as instâncias da vida social, tendemos a julgar positiva a forma de gestão da universidade por uma equipe eleita. Mas quando consideramos casos concretos como o da minha universidade, a Unicamp, vemos que ali se pode instalar – graças ao sistema eleitoral – um princípio corrosivo da vida de uma instituição pública, que é o populismo. De fato, o que a história recente da Unicamp mostra é que, para se eleger, um reitor precisa convencer os vários segmentos a votar no seu nome. E apesar de a universidade ser pública e em princípio um lugar de racionalidade, o interesse do eleitor é sempre privado, no sentido de ser vinculado não apenas ao seu possível proveito pessoal ou de classe. Assim, hoje a Unicamp luta desesperadamente para superar uma crise orçamentária que ameaça de imediato a qualidade dos seus serviços e, a médio prazo, sua própria continuidade. Isso porque entre nós o reitor e sua equipe têm o poder direto ou indireto de modificar jornadas de trabalho, aumentar salários por meio de reescalonamentos da carreira, inflar ou desinflar determinados órgãos, criar gratificações, bem como oferecer ou aumentar vantagens trabalhistas como vale-refeição e transporte, e inclusive definir o piso salarial ou o percentual de aumento e reposição do poder de compra dos salários.
Uma tal estrutura, ao mesmo tempo que permite essas distorções, impede outras. As que dizem respeito ao tipo de problema relatado nos artigos da americana e do inglês. Isso porque, entre nós, como a execução do orçamento público é definida no interior da universidade, os vários departamentos, institutos e órgãos de representação têm maior poder de pressão e decisão. Ou seja, não existe a figura de um poderoso gestor externo aos seus quadros, com salário independente das carreiras da universidade e com poder de implementar de fora para dentro decisões de caráter acadêmico com base em argumentos econômicos. Assim, na Unicamp, por exemplo, e não só porque o órgão deliberativo tem representantes de todas as áreas do conhecimento, de modo proporcional, mas também porque as humanidades têm número e poder de argumentação política, não parece possível (por enquanto) nenhuma ação diretamente dirigida contra as humanidades.
Já no que diz respeito ao financiamento de atividades de formação universitária – tanto em termos de bolsas para estudantes de graduação e pós-graduação e para docentes, quanto no que toca ao investimento para montagem de laboratórios, bibliotecas e centros de documentação – o que é mais notável não é a diminuição dos recursos, mas as determinações que ordenam a sua utilização.
Em primeiro lugar, porque as bolsas, mesmo quando se denominam “bolsas de estudo” são, na verdade, compreendidas como “bolsas de pesquisa”. Mesmo que “pesquisa” seja um termo bastante ambíguo, ou mesmo vazio de senido específico, quando aplicado, por exemplo, ao campo dos estudos literários. Isto é: elas se destinam a “pesquisadores”, que possam, ao final da vigência, apresentar um conjunto significativo de “produtos”: artigos, resenhas, participação em congressos, livros e capítulos de livros. É certo que talvez não haja como verificar a boa aplicação dos recursos, sem a apresentação dos “resultados”. Mas também é certo que essa forma de conceber os resultados vai em prejuízo de algo que, no caso dos cursos de graduação e de pós-graduação, deveria ser o objetivo maior, a atividade principal a ser apoiada pela bolsa: a obtenção de uma formação ampla, na graduação; e, na pós, a elaboração de uma dissertação ou tese que contribuísse para a ampliação ou redefinição do campo em que se insere.
As consequências dessa forma de compreensão do trabalho formativo produzem, eu creio, uma alteração importante – na verdade, de extrema importância – no perfil dos profissionais das humanidades: a tendência – por conta das bolsas de iniciação científica e por conta de que há pouco campo de trabalho para o egresso, a não ser que tenha pós-graduação – à  especialização precoce. De fato, o que mais temos hoje são os especialistas prematuros: o estudante que passa a graduação inteira estudando um só assunto, muitas vezes vinculado ao projeto de pesquisa do orientador; o estudante de mestrado ou doutorado que, sem ter completado uma formação significativa de repertório, faz um aprofundamento vertical no campo estreito em que já vinha trabalhando; e o recém-doutor que, formado dessa maneira, continua a verticalização do saber iniciada muitas vezes nos primeiros anos da graduação. Disso decorre, eu creio, termos tantos doutores e professores jovens de universidade na área de Letras (para referir apenas a que melhor conheço), cujo conhecimento de literatura e repertório cultural se restrinja estritamente ao século, ou mesmo às décadas, que circunscrevem o seu objeto de estudo. E mesmo assim, só ao imediatamente localizável nos poucos anos em que recebeu a bolsa para terminar o seu trabalho, em meio a pressões para escrever artigos e participar de congressos, ou teve de elaborar um projeto de pós-doutoramento para receber uma bolsa que lhe permita, futuramente, candidatar-se a um posto universitário.
Em segundo lugar, porque a forma de distribuição das verbas federais e das fundações estaduais no Brasil é pautada pelo modo de funcionamento das ciências, com privilégio da “pesquisa” e do trabalho em grupo. Essa forma de avaliação do “pesquisador”, por alguma razão, tende cada vez mais a ser, na universidade brasileira, a forma de avaliação do professor. O que produz, do meu ponto de vista, uma distorção no campo de trabalho, pois os docentes tendem a valorizar mais aquelas atividades sobre as quais serão avaliados para renovação de contrato ou promoção na carreira. Do que decorre que justamente aquela atividade na qual o professor experiente, com amplo repertório e capacidade de leitura compreensiva, seria necessário fique por conta de doutorandos, pós-doutorandos ou professores mais jovens, que não queiram ou ainda não possam trabalhar na pós-graduação.
Por fim, há que considerar que o ensino médio no Brasil – especialmente o público – despreza a formação humanística (os últimos projetos federais e decretos inclusive vão liquidando com o pouco que havia nessa área) e se volta quase exclusivamente à preparação para o vestibular. E então se fecha o círculo: alunos vão para a universidade sem formação cultural, seguem sem ela nos cursos de ciências, e se profissionalizam nos termos acima nas áreas de Humanas, para depois raramente desejarem regressar ao ensino médio como professores.
A esse desenho algo depressivo é preciso acrescentar mais um traço, que é o fato de que hoje, no Brasil, a única forte razão para os colégios incluírem a literatura no currículo, ainda que lateralmente, é o vestibular das grandes universidades, pois eles exigem algum conhecimento literário e a leitura de alguns livros para o sucesso em uma das suas provas. O que quer dizer que, no caso do enfraquecimento dos departamentos de Letras, caso sejam eliminadas as listas de livros e as questões literárias (o que parece muito provável, porque nas provas de vários vestibulares é mais frequente hoje que a interpretação de texto se dê sobre quadrinhos de jornal do que sobre romances ou poemas), é muito provável que a leitura, como objeto dos cursos secundários no Brasil, se desvincule de vez do campo histórico e literário e se resolva apenas como interpretação de textos corriqueiros.
Nesse quadro, o que eu poderia dizer sobre as humanidades na universidade brasileira? Que estão sob ataque, nos termos dos artigos que acabo de mencionar? Não. Não é o que parece. Se há aqui um perigo para as humanidades, ele deriva de um fator ambivalente, pois é a sua fraqueza, sem deixar de ser a sua maior força de resistência. Do meu ponto de vista, essa faca de dois gumes é o imobilismo acadêmico, que preserva, na forma dos departamentos e institutos e núcleos de pesquisa, um campo de trabalho que, graças à forma de administrar a universidade pública no país, sobrevive sem tantas dificuldades. Na verdade, sobrevivem em situação incomparavelmente mais confortável do que aquela em que se encontram seus congêneres nos Estados Unidos, por exemplo. Mas aí também está a sua fraqueza, porque o sistema de mônadas departamentais e de unidades acadêmicas restringe as humanidades aos cursos próprios, sem que possam ter lugar ou importância nos demais.
Disso resulta, portanto, que os investimentos nas humanidades fiquem restritos, do ponto de vista dos seus resultados estritamente acadêmicos, aos cursos da área. Ou seja: à formação de “pesquisadores” e de professores. E quer a situação atual que os professores (que seriam, por assim dizer, o resultado de impacto social mais imediato e relevante) se formam sem destinação, pois o sistema do ensino básico e médio, além de não oferecer salários razoáveis, na verdade já não vai tendo lugar para eles. O que quer dizer que fica aberto o campo à pergunta agressiva e difícil de responder: por que se deveria investir tanto dinheiro nessas unidades fechadas sobre si mesmas, que formam pessoas para não exercerem a profissão para a qual, em princípio, foram formadas.
E disso resulta também, do meu ponto de vista, que entre nós – onde as humanidades têm essa configuração na universidade – sequer se possa defender a sua necessidade com base no argumento implícito no título do artigo com que abri este comentário: “as humanidades ensinam a pensar”. É muito provável que seja verdade, em tese. Mas seria mesmo verdade, no quadro de crescente profissionalização precoce e progressivo estreitamento do campo do saber, em função da hipertrofia da avaliação por produtos, em detrimento da formação abrangente? Mas, mesmo nesse caso, sendo a resposta for positiva, ainda se poderá erguer outra pergunta: ok, ensinam; mas a quem, e como, na atual configuração acadêmica brasileira?





           




[1] https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/may/12/humanities-students-budget-cuts-university-suny
[2] https://www.theguardian.com/education/2015/mar/29/war-against-humanities-at-britains-universities
[3] http://paulofranchetti.blogspot.com.br/2012/05/este-texto-foi-lido-em-2006-num-forum.html