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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Martins, Pessoa e o herói na Mensagem

OLIVEIRA MARTINS, FERNANDO PESSOA E A FIGURA DO HERÓI EM MENSAGEM

 [Referência do texto: 
Anais do XXIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa -
 http://www.abraplip.org.br/wp-content/uploads/2015/01/Anais-XXIII-Congresso-2011.pdf ]


            A História de Portugal e a História da civilização ibérica são livros que marcaram profundamente o imaginário português dos últimos anos do século XIX e das primeiras décadas do XX. A partir desses li­vros, e dos que se seguiram na pena de seu autor, ganha corpo e expressão uma espécie de “complexo nacional” frente ao qual (em apoio ou contraposi­ção) se vai situar a in­teligência portuguesa contemporânea e subse­quente. Antero, Eça e Junqueiro, no momento, António Sérgio, Jaime Cortesão e Fernando Pessoa, posterior­mente, são apenas os nomes mais notáveis que tratarão de incorporar, combater ou transformar as principais teses e conclu­sões surgidas nesses trabalhos.
            A maior parte do primeiro livro gira à volta do tema da decadência portuguesa. Tudo o que sobreveio depois de 1580 é visto apenas como um longo estertor, em que se debate inutil­mente um indivíduo con­denado, seguido da decomposição do corpo social já sem vida própria. E mesmo antes, desde D. Manuel, longos trechos dos capítu­los trazem prefigurações da desgraça, de que Alcácer-Quibir é apenas o desenlace formidável.
            Como já tentei mostrar em outra parte, o procedimento básico e recorrente ao longo da obra histórica de Oliveira Martins consiste em descrever e analisar acontecimentos particulares como símbolos das grandes tendências ou transfor­mações de um universo mais amplo, classista ou nacional. [i] Todo o seu livro da História de Portugal é montado sobre esse procedi­mento. O ter­remoto de Lisboa são as reformas do Marquês de Pombal. Cabral e o Gama são a exploração material e pérfida da Índia. Albuquer­que e D. João de Castro, a sua face genial e correta, embora inadap­tada à realidade do tempo. E D. João VI, “sujo, gorduroso, feio e obeso”, é o emblema de 200 anos de decadência praticamente ininterrupta, “representante quase póstumo de uma dinastia (...) de reis doidos ou ineptamente maus”.[ii] O segundo é a recorrente explicação da decadência como expiação dos crimes anteriormente cometidos.[iii] É certo que coexiste em Oliveira Martins pelo menos mais uma interpretação da necessidade da decadência em Portugal, mas, no mecanismo narrativo da História, a expiação é o que mais impressiona. A outra interpretação da decadência, que com essa faz pendant, se encontra na História da Civilização Ibérica. E é esta:

Caímos, passamos, porque é da natureza de todas as cousas vivas – e uma sociedade é um organis­mo – nascer, crescer e morrer.[iv]

            No texto há pouco referido, tratei também dos desdobramentos da metáfora organicista no pensamento de Martins e, sobretudo, na organização da sua narrativa. Assim, não vou abordar agora um dos seus mais notáveis desdobramentos, que é a oposição entre nação e nacionalidade, embora tenha sem dúvida interesse para a compreensão de Mensagem. Aqui, o foco estará na constituição da figura do herói.
            Essa é uma denominação curiosa, na História de Portugal. Por exemplo, Afonso Henri­ques é sem dúvida um herói, a quem cabe um papel central. Mas um papel que cumpre apesar de si mesmo: “Afonso Henriques foi quem verdadeiramente consumou a separação de Portugal, não pelos méritos próprios apenas, mas porque a direção política do reino começou no seu tempo a ser encaminhada pelos fatos no sentido de definir de um modo positivo a independência da nação”.[v] Quanto aos méritos próprios, eis como o define o mesmo historiador: “valen­te, medíocre, tenaz, brutal” e de “pérfido caráter” – quase um bandido, em suma.[vi] O outro grande herói do período de formação é, para o historiador, Pedro I – que ele descreve como louco, gago, furioso na aplicação de uma justiça passional. Todos os demais reis são figuras pálidas, sem expressão frente a esses dois, que, em suas próprias palavras, eram os “in­divíduos tipos, os dois loucos – um, frenético, brandindo o punhal mortífero; outro, carrancudo e fero, empu­nhan­do o látego do algoz e a vara de juiz, ou risonho e folgazão, dançando e cantando nas ruas no meio da sua família, como um pai”.
            Mais do que indivíduos, vê-se, são eles símbolos da construção de um organismo que os transcende, de que eles são ao mesmo tempo os criadores e os instrumentos. Por isso, por buscar nos heróis a encarnação de uma ideia coletiva, além desses dois “loucos”, nenhum outro rei da casa de Borgonha merece maior atenção na História de Portugal. Nem mesmo D. Dinis merece algum elogio muito maior do que “já não é anal­fabeto, e mede bem o valor da ciência”. E se o fundador da Universidade recebe algum destaque na dúzia e meia de linhas anódinas com que comparece na História é apenas porque Martins lhe reconhece “uma intuição dos caracteres modernos das nações”. De modo geral, a atenção do historiador se fixa apenas naquelas personalidades que fogem da mediocridade ou do esperado, naqueles caracteres que funcionam como símbolos de uma ideia que ainda não cabe neles, que não ascendeu ao nível da sua consciência e por isso se manifesta neles sob o aspecto da loucura e do grotesco.
            Para o historiador, era bem determinado o momento em que se estabelece a consciência nacional e começa a vida da nação como um indivíduo completo e equilibrado: a Revolução de 1383.
            Na História e no Camões, a revolu­ção equivale a uma metamorfose:

Na crise de 1383, Portugal aparece outro. Fundidos e assimila­dos, os elementos constituti­vos da nação tinham adquirido já o poder de organização bastante para ganhar uma consciên­cia; e é por isso que o movimen­to fundador da segunda dinastia se nos apresenta como um ato popular ou coletivo, uma ex­pressão positiva da vontade nacional, enquan­to as agitações anterio­res não passavam de atos pessoais ou de classe, revoltas de indivíduos.[vii]

Aí temos a extensão máxima da metáfora organicista, dentro de uma perspectiva evolucionista. E, para tornar mais claro o ponto, leia-se o que escreveu na História da Civilização Ibérica:

As nações são, com efeito, seres coletivos, e o seu desenvol­vimento é em tudo análogo ao dos seres in­dividuais. A biologia, ou ciência da vida, abraça também a história dos povos. Os órgãos do corpo social apresentam‑se, primeiro, como esboços rudimen­tares: e o conjun­to possui apenas o caráter de agregação. À medida que a ação e reação dos diversos elemen­tos obriga cada um deles a definir‑se e a especializar‑­se, vai aparecendo o prin­cípio de coor­denação comum, espécie de prin­cípio vital social.[viii]
           
            Ao que acrescenta:

            Logo, porém, e à maneira como se desenvolve e tende a atingir a perfeição típica, a sociedade gera em si um pensa­mento que é ao mesmo tempo o norte que dirige e a mola interior que move o ser orgânico no seu desenvolvimento e afirmação (...)

            E, por fim:

Quando as nações, depois de uma lenta e longa elabo­ração, atingem esse momento culminante em que todas as forças do organismo coletivo se acham equilibradas e todos os homens compene­trados por um pensamento, a que se pode e deve chamar alma nacional – porque o mesmo caráter tem nos indivíduos aquilo a que chamamos alma – é então que se dá um fenômeno a que também chamaremos síntese da energia coletiva. A nação aparece como um ser não apenas mecânico, quais são as primei­ras agrega­ções; não somente bioló­gico, como nas épocas de mais complexa e adian­tada organização; mas sim humano – isto é, além de vivo, animado por uma ideia. Nestes momentos sublimes em que a árvore nacional re­benta em frutos, o gênio coletivo já definido nas cons­ciências, realiza esse mistério que as religiões sim­bolizaram na encarnação dos deuses. Encarna, desce ao seio dos indivíduos privilegiados; e dessa forma, adquirindo o que quer que é de forte que só no coração dos homens existe, atua de um modo decisivo e heroico.[ix]

            Chegamos assim à concepção básica do movimento da história e da função do historiador, segundo Oliveira Martins:

Todas as grandes épocas das nações se afirmam por uma plêiade de grandes homens em cujos atos e pensamento o historiador encontra sempre o sistema das ideias nacionais, anteriormente elaboradas de um modo coletivo, atualmente expressas de um modo individual. O herói vale pela soma de espírito na­cional ou coletivo que encarnou nele; e num dado momento os heróis consubstanciam a totalidade desse espíri­to.

            A ideia é clara e, lendo isso, fica evidente que os heróis da história não têm, na composição de Martins, apenas o estatuto de recurso dramático, como já se julgou.[x] Nem sua história é uma narração que se apoia nos heróis como concessões ao didático ou ao exemplar.         No entender de Oliveira Martins, se é verdade que para conhecer a história de uma nação é preciso acompa­nhar a história das suas condições geográficas e das suas instituições e classes, isto é, a história material e anônima, é também verdade que apenas no “sistema dessas manifes­tações indivi­duais poderemos encontrar o fio histórico. Tudo era anônimo: tudo agora é pessoal; e na tragédia his­tórica, prelu­di­ada por coros numero­sos, ouvem‑se já as vozes das per­sona­gens”.[xi]
            O papel das individualidades heroicas que representam a vontade, o propósito social, precisa, para ser mais bem compreendido, ser projetado contra o pano de fundo de uma outra questão central na concepção de história de Oliveira Martins: que lugar tem o impre­visto, o fortuito, na ordem e na deter­minação dos aconte­cimentos his­tóricos? O que implica uma discussão sobre a possibili­dade de previsão dos rumos futuros de uma dada sociedade. Uma discussão, portanto, em última instância, acerca do caráter da his­toriografia enquanto ciência.
            Numa época em que o fortuito era ou uma manifestação indireta da vontade ou providência divina, ou um “adjetivo inventado para consolar a vaidade humana de ignorar a cada passo a genealogia dos fatos e dos acontecimentos”, como pensava Herculano, Martins vai tentar afirmar simultaneamente o caráter científico da história e a existência do casual, do imprevisto na determinação do devir histórico.[xii] Nesse ponto, percebe-se a importância que teve, para o seu pensamento sobre a História, a leitura da obra de Antoine-Augustin Cournot (1801-1877), de quem herda inclusive a concepção de que o final do século iniciava um novo período na vida das sociedades humanas: a pós-história.[xiii]
            Nessa linha de reflexão, para Oliveira Martins não havia dúvida, já em 1878, de que a História era uma disciplina cien­tífica, como a Biologia ou a Química. Sucedia que, por ser uma ciência de categoria supe­rior, o seu campo de trabalho recobria fenômenos que pertenciam a múltiplas e variadas “séries” de desen­volvimen­tos. Daí que a previsibilidade – que se apoia na distinção entre o que é acidental e o que é necessário ao longo de um determinado processo – fosse menor na ciência histórica do que nas ciências inferiores. Nas suas palavras:

...o fortuito (...) cresce em razão direta da categoria ou complexi­dade das ciências, e é por isso maior na história do que na biologia, na biologia do que na física.[xiv]

            Logo a seguir, para exemplificar como a interferência das séries dificulta a previsão histó­rica, escreve, no mesmo texto:

O inverno excepcionalmente frio, que gelou o exército de Napoleão na Rússia, sem ser um milagre, é, porém, um caso fortuito que veio impor uma marcha diferente daquela que as previsões da ciência his­tórica e militar tinham o direito de prescre­ver. (...) Nem só o encontro inopor­tuno ou intempes­tivo de duas séries indepen­dentes se deve considerar fortuito, porque a espécie de influên­cia que esse encontro exerce sobre a marcha normal das leis naturais não tem virtude para lhe alterar a natureza de incidente. Os acon­tecimentos fortuitos tanto podem embaraçar como auxiliar a história normal; e se o frio inverno de 1813, des­truindo o exército de Napoleão é um caso fortuito, igual­mente fortuito seria um inverno ex­cep­cional­mente temperado que o levasse a S. Petersburgo mais fácil e rapidamente do que fosse lícito esperar da marcha ordinária de tais empresas. (...) Os casos fortuitos são na história infinitamente mais numerosos do que em qualquer outra ciência, porque o número de séries que independente­mente se desen­volvem dentro do seu domínio (e por isso seus encontros, cuja repetição é progressiva e não pro­por­cional), além de conter o das que se dão dentro das ciências in­feriores, contém o das que se dão pró­prias das raças, das sociedades e dos indivíduos como seres morais e naturais.[xv]

            A expressão “história normal” decorre da postulação de que haja um vetor previsível de desen­volvimen­to da história, cuja direção, em linhas gerais, é possível determinar com base em considerações objetivas, tais como a deter­minação geográfica e rácica do grupo social, o estágio evolu­tivo de sua economia, seu poderio bélico etc.      
            Já se escreveu bastante sobre o hegelianismo de Martins, bem como sobre o seu proudhonismo. E é certo que a sua postulação de um herói coletivo, que encarne e expresse a vontade coletiva, é de matriz hegeliana.     Seu Júlio César, como observou A. J. Saraiva, é o de Hegel. No entanto, também se percebem claramente outras influências, já igualmente iden­tificadas pela crítica, anteriores ao conhecimento do filósofo alemão, de que o pensamento de Spencer, de onde tomou a analogia organicista, é das mais notáveis.            Falta estabelecer as diferen­ças, aquilo que parece específico ou central na estrutura do pensamen­to de Martins em relação aos autores cujo pensamento incorporou e transformou ao longo dos seus trabalhos.
            Um dos pontos fulcrais da obra martiniana, que lhe permite de alguma forma acomodar as várias e talvez inconciliáveis fontes teóricas que orientam seu discurso, é o seu particular conceito de heroísmo. Para ele, são insatis­fatórias as duas concepções de herói correntes no tempo: não aceita nem a ideia de que esses in­divíduos sejam “espontânea e natural emanação das condi­ções da sua época, porque amiúde encontramos exemplos do contrá­rio”; “nem tampouco (...) a teoria oposta que vê nos grandes homens indi­vidualidades inteira­mente livres e indepen­dentes que atuam subje­tivamente na socieda­de”.[xvi]
            Na sua concepção, os heróis podem ser basicamente de dois tipos, conforme se coloquem a favor ou de algum modo contra a corrente do tempo. Os que se colocam a favor e resumem as tendências da época – os conquis­tadores e os grandes estadis­tas – ficam sendo emblemas do momento porque são intérpretes – conscientes ou não – da his­tória. Os exemplos mais típicos dessa categoria seriam César e Filipe. Por outro lado, e aqui está o ponto, há personagens que têm outro estatuto: os inovadores e revolucioná­rios, que são marcados pela predomi­nância do “espírito subjetivo” e pela luta – nesse caso, haveria um choque entre a série em que esse tipo se envolve e a série que domina a sociedade naquele momento. O exemplo que nos fornece desse segundo tipo é o romano Graco. A individuali­dade de uma personagem do primeiro tipo, diz Martins, “é, sob o ponto de vista das leis da história, uma in­dividualida­de, se é lícito dizer assim, coletiva; porque a sua ação não altera nem desvia o caminho neces­sário da história, e a esfera do fortuito cir­cuns­creve‑se à maior ou menor rapidez com que o movimento se efetua, e às condições espe­ciais que o caracterizam e acompanham”.[xvii] Esses heróis são “propria­mente símbolos: e por isso tantas vezes a erudição tem descoberto o pequeno valor pessoal daqueles a quem as circunstân­cias tornaram para o povo a encar­nação do seu pensamento, e o ins­trumento inconsciente das leis histó­ricas”.[xviii]
            Já a individualidade do segundo tipo é sempre muito rica, tem “altos merecimentos indivi­duais; e é natural que seja assim, uma vez que só uma energia excepcional de pensamento subjetivo é capaz de arrostar de frente contra o majestoso sistema do organismo social”.[xix]
            Desse quadro em que se destacam, por um lado, a multipli­cidade das séries implicadas no objeto da história e, por outro, a neces­sidade de entender a que tendências pessoais ou coletivas corres­pondem os heróis, resulta uma postulação de grande impor­tância para o método de Oliveira Martins: a de que o herói é praticamente o princípio inteligível do desenvol­vimento histórico, porque é do seu destino que se podem deduzir com segurança as forças reais em ação numa dada sociedade. Daí que ao historiador ­não bastem os procedi­mentos normais das ciên­cias, a saber, e, nas suas palavras, “a observação e o sistema classi­fica­dor” – do mesmo modo, à linguagem do historiador “não bastam a precisão e a clare­za; é mister sentir e adivinhar, e pôr no estilo a vida e calor próprios das causas morais e animadas”.[xx] Mais do que um obser­vador isento ou um narrador imparcial, portanto, o historiador é um escritor inspirado, que busca identificar os heróis e transmitir ao seu leitor uma inter­pretação em certa medida pessoal do seu objeto, pois se a valorização dos heróis triunfantes não oferece problemas, o herói fracassado é em grande medida “descoberto” ou valorizado em função de um julgamento da sua grandeza subjetiva – o que quer dizer moral.
            Se há um traço constante e dominante ao longo de toda a obra de Martins, creio que é esse de apreciar os heróis como o princípio de inteligibilidade da história. E como os heróis não estão apenas sujeitos às tendências triunfantes ou derrotadas no percurso histórico, mas evoluem também e dramaticamente contra o pano de fundo do fortuito e do imponde­rável, é a reflexão sobre o seu destino que permite que o historiador não só afirme a necessidade do que foi, mas também especule, ou mesmo se lamente, sobre o que poderia ter sido.[xxi]
            Ou seja: utilizando amplamente os recursos da alegoria e do emblema, Oliveira Martins consegue ler, na trajetória da vida pública das suas personagens, uma dimensão cósmica. Movem-se com elas muito mais do que os interesses de determinadas famílias, grupos ou classes sociais: há um destino fatal, uma espécie de moira, pairando sobre as suas cabeças; há um obscuro sentimento de que a justiça se cumpre, ao longo do tempo; e há nos seus grandes heróis uma espécie de transe que preside as decisões e os atos mais relevantes do ponto de vista coletivo. A história de Portugal adquire assim uma dimensão cósmica, como antes só a tínhamos visto em Camões e que depois reencontraremos na Mensagem de Fernando Pessoa.
            António José Saraiva percebeu muito claramente essa dimensão da História de Portugal e em seu último trabalho sobre Martins atribuiu a esse livro “um caráter único que nós só podemos definir dizendo, paradoxal­mente, que é uma obra de introspecção”. Para explicar o que fosse esse “retrato introspectivo de uma nação”, escreveu o ensaísta:

Ele entendeu que a realidade se processa de dentro para fora, da semente para a flor, ao passo que os his­toriadores comuns, julgando-se cientistas, procedem de fora para dentro, como é habitual na análise cien­tífica, mas afastando-se cada vez mais daquilo que pretendem explicar. (...) É por isso que, em com­paração com esta História de Portugal, as outras, à sua luz, nos aparecem como sombras imperfeitas.[xxii]

            A presença do pensamento de Oliveira Martins na Mensagem, de Fernando Pessoa, já foi apontada, entre outros, por Helder Macedo, numa conferência pronunciada no centenário de Pessoa, na Unicamp.[xxiii] E alguns anos depois, António José Saraiva, em A tertúlia ocidental, escreveu: “os três grandes livros sobre Portugal são Os Lusíadas de Luís de Camões, a História de Portugal de Oliveira Martins e Mensagem de Fernando Pessoa”[xxiv] – ao que acrescentou: “Quanto ao terceiro livro, a Mensagem, é a condensação em mitos da narrativa de Oliveira Martins, principalmente. Não pertence ao gênero historiográfico como as outras duas obras; é um conjunto de odes inspiradas por elas”.[xxv]
            Nessa formulação radica-se a minha hipótese de leitura: a de que o pensamento de Oliveira Martins está profundamente entranhado na Mensagem, não apenas lhes dando a conformação geral do tema e o desenho de cada personagem, mas ainda (e nisso residirá, se tiver sucesso, a minha possível contribuição à leitura) determinando a distribuição dessas personagens ao longo do poema, bem como a constituição do discurso de cada uma das “odes”.
            Antes de prosseguir, porém, vejamos a estrutura básica do poema, no que diz respeito à escolha e à distribuição das personagens da história nacional.

MENSAGEM


Primeira parte – BRASÃO

I.          OS CAMPOS

1o Os Castelos
2o O das Quinas

II.         OS CASTELOS

1o Ulisses                                                    (3)
2o Viriato                                                     (2)                   (? -140 a.C.)
3o D. Henrique                                            (2)                    (1057?-1112)
4o D. Tareja                                                 (2)                    (1091-1130)
5o D. Afonso Henriques                              (2)                    (1109?-1185)
6o D. Dinis                                                  (3)                    (1261-1325)
7o (I) D. João o Primeiro                             (2)                    (1357-1433)
7o (II) D. Filipa de Lencastre                      (2)                    (1360-1415)

III.        AS QUINAS

1o D. Duarte, Rei de Portugal                    (1)                    (1391-1438)│
2o D. Fernando, Infante de Portugal          (1)                    (1402-1443)│
3o D. Pedro, Regente de Portugal              (1)                    (1392-1449)│
4o D. João, Infante de Portugal                  (1)                    (1400-1442)│
5o D. Sebastião, Rei de Portugal                (1)                    (1554-1578)

IV.       A COROA

Nun’Álvares Pereira                      (2)                    (1360?-1431)

V.        O TIMBRE

A CABEÇA DO GRIFO
O Infante D. Henrique                   (3)                    (1394-1460)│

UMA ASA DO GRIFO
D. João o Segundo                        (3)                    (1455-1495)

A OUTRA ASA DO GRIFO
Afonso de Albuquerque                (3)                    (1462?-1515)

Segunda parte – MAR PORTUGUÊS

I.          O infante                                                          (2)
II.         Horizonte                                                                    
III.        Padrão                                                             (1)        Diogo Cão (séc. XV)
IV.       O mostrengo                                                     (3)
V.        Epitáfio de Bartolomeu Dias                             (3)        (?-1500)
VI.       Os Colombos                                                                (1451?-1506)
VII.      Ocidente                                                                       (1500)
VIII.     Fernão de Magalhães                                       (3)        (1480?-1521)
IX.       Ascensão de Vasco da Gama                            (3)        (1468?-1524)
X.        Mar português                                                             
XI.       A última nau                                                                   (1578)
XII.      Prece                                                                          



Terceira parte – O ENCOBERTO

I.         OS SÍMBOLOS

1o D. Sebastião                                     (1)
2o O Quinto Império                                         
3o O Desejado                                      
4o As Ilhas Afortunadas                         
5o O Encoberto                                                

II.        OS AVISOS

1o O Bandarra                                       (3)        (1500-1556)
2o António Vieira                                  (3)        (1608-1697)
3o                                                           (1)        (1888-1935)

III.       OS TEMPOS

1o Noite
2o Tormenta
3o Calma
4o Antemanhã
5o Nevoeiro


            Como se pode constatar, a ordem de apresentação das personagens históricas é, no geral, cronológica, com duas alterações: o deslocamento de Nun’Álvares para depois dos filhos de D. João I e a mais violenta infração da cronologia, que consiste na inclusão de D. Sebastião junto aos príncipes da Ínclita Geração e no consequente deslocamento do infante D. Henrique de junto dos seus irmãos.
            Observa-se também, quando se consideram as personagens e as datas, que a dinastia de Bragança está praticamente ausente do poema. Nenhum príncipe, nenhum agente histórico que não sejam os profetas da ressurreição nacional (o Bandarra e o Padre António Vieira).
            Por fim, observa-se uma interessante forma de articular as “odes” nomeadas segundo os atores históricos: dividem-se entre aquelas que trazem o discurso em primeira pessoa (dizem “eu” as Quinas, Diogo Cão, D. Sebastião – que aparece duas vezes no poema – e o 3o Aviso) e as que trazem o discurso em terceira ou segunda pessoa. Mais especificamente, entre aquelas em que a personagem histórica assume o discurso e explicita o seu papel na história ou a sua consciência da implicação dos seus atos, e aquelas em que a personagem é descrita de fora ou interpelada pela voz poética.
             Minha percepção é que a forma da distribuição das personagens e, principalmente, a forma de articulação do seu discurso têm relação íntima com a teoria do herói de Oliveira Martins. Como na obra de Martins, são aqui os heróis o princípio de inteligibilidade da história. E, como lá, há os que triunfam e os que fracassam.[xxvi]
            É certo que a leitura de Mensagem não pode ignorar o paradigma crístico, definido pelo poema que diz:

Foi com desgraça e com vileza
         
  Que Deus ao Cristo definiu:
         
  Assim o opôs à Natureza
         
  E Filho o ungiu.

Ou seja, não se pode ignorar o modelo sacrificial na escolha da forma do discurso: as personagens das Quinas são mártires e, portanto, conscientes do seu destino. Consciência esta que as torna verdadeiramente mártires (isto é: testemunhas) e não apenas vítimas.        É a consciência que distingue, por exemplo, D. Fernando, o Infante Santo, do animal que vai para o sacrifício pagão, aludido no ato de dourar a fronte:

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
         
  A fronte com o olhar;

            Mas uma observação atenta do destino histórico das personagens que se expressam em primeira pessoa mostra que são os desgraçados ou fracassados que assim o fazem. São os que foram pagos como preço da glória, e também o que teve nele uma certeza que o transcendia.[xxvii] Já entre os que não se expressam em primeira pessoa, há dois tipos: aqueles cujo sentido na história o poeta expõe e aqueles para os quais o poeta desvela o sentido da ação ou invoca como figuras tutelares da obra de ressurreição nacional, cuja hora o poema anuncia. Trata-se, na verdade, de importante modalização, pois os que são descritos em terceira pessoa têm uma interpretação comum, pacífica – tal como foram fixados pela tradição histórica (e, no caso, não só na História de Martins); já os que são interpelados em segunda pessoa são redimensionados, no poema de Pessoa, que lhes desvela o sentido oculto ou iniciático da presença e da ação.
            Portanto, se Pessoa aproveita de Martins a teoria do herói – dividido entre o fracassado de grandes merecimentos individuais e o triunfante, que é encarnação das forças sociais majoritárias –, ao mesmo tempo promove uma subdivisão na tipologia do herói triunfante, que lhe permite reinterpretá-los (contra, por exemplo, a leitura camoniana e martiniana, no caso de D. Tareja) em função de uma leitura iniciática da história, na qual ela aparece como a matriz carnal e instintiva (“nela o sensual era maior”, disse Camões) do reino que depois se transformará em império, cuja madrinha já será D. Felipa.
            Essa leitura iniciática também parece responder pela diferente seleção das personagens, em relação à História de Portugal. D. Pedro I, por exemplo, está ausente do poema. Como o destino histórico da nação, segundo Pessoa, está no descobrimento, no desvendamento – na decifração do mundo, primeiro materialmente e depois espiritualmente, conforme se lê já no texto de A Águia[xxviii] – e não na celebração do amor ou na aplicação da justiça, está ausente esse rei que, segundo Martins, tão bem resumia os primeiros tempos da nação.
            E é a essa leitura iniciática que se deve a enorme valorização de D. Dinis – destoante seja em relação ao lugar que ele ocupa em Os Lusíadas, em que aparece achatado pela ausência de feitos guerreiros, seja em relação à História de Portugal, onde aparece como vimos. Aqui, D. Dinis, embora triunfante e descrito desde fora, exibe a consciência do seu papel histórico, de fundador da língua e do corpo das navegações: o rei lavrador transforma-se no plantador do futuro trigo do Império.
            Ao mesmo tempo, a inclusão de D. Felipa de Lencastre nos castelos, por meio do artifício do desdobramento do sétimo, é um momento de confluência entre a perspectiva iniciática de Pessoa e a narrativa histórica do nascimento da consciência portuguesa, tal como a descreveu Oliveira Martins, pois foi este que praticamente a definiu como madrinha de Portugal, em Os Filhos de D. João I, ao propô-la como elemento de ligação entre a tradição da cavalaria inglesa e o heroísmo português. Como se vê nestas passagens, a segunda das quais ecoará ainda no famoso artigo de A Águia:

            Foi o seu último filho. D. Filipa acabou por gerar um santo, ela em cujo ventre se formara a semente de tão grandes homens. Quinze anos (1387 a 1402) de um procriar incessante: abençoadas entra­nhas! E durante este período, no vigor da vida, entre os trinta e os quarenta e cinco, o rei não teve um bastardo. Que singular mudança houvera nos costumes da corte: dessa corte que vinte anos antes aclamara Leonor Teles.[xxix]

            O espírito generoso da cavalaria, importado de fora, toma entre nós feições e objetos indígenas. A empresa consiste num franco navegar para o bem, com as velas cheias pela viração da ciência e da fé, que ainda sopravam acordes.[xxx]

            A moda das divisas e motos, introduzida, com outros inglesismos, pelo casamento de D. João I (...) essa moda importava pouco em si, mas significa muito porque as divisas da família de Avis exprimem todas a nova ordem de ideias que a corte respirava e de que vivia. Fato é, porém, que o formalismo ritual da cavalaria veio dar corpo, e portanto consciência e consistência, aos sentimentos de galhardia e lealdade portuguesas, expressos em numerosas lendas históricas, e encarnados no vulto épico do condestável (...) O mestre de Avis, todavia, primeiro rei estrangeiro que entrou na “santa confraria da Garrotea”, abriu um lugar à fidalguia nacional nas legiões da cavalaria europeia.[xxxi]


            Finalmente, cumpre aplicar a hipótese ao terceiro aviso, costumeiramente identificado à figura do poeta. Ele fala em primeira pessoa, e é, portanto, dentro das coordenadas que vimos traçando um herói fracassado. O que não quer dizer, no caso, que já tenha fracassado: é apenas alguém que tem, nos termos de Martins, acima transcritos, “energia excepcional de pensamento subjetivo [e] é capaz de arrostar de frente contra o majestoso sistema do organismo social”. A voz dissonante do presente, cujo destino se decidirá no atendimento à sua mensagem, isto é, à convocação para a virada, com a qual saúda os possíveis irmãos.
            E com isto se fecha esta comunicação. Não posso ir aqui mais longe no comentário do poema, enfatizando a relação que outros elementos seus mantêm com o pensamento e a obra de Oliveira Martins. Mas espero, com estas breves indicações, ter sugerido com alguma coerência que se trata de uma impregnação muito mais ampla e muito mais profunda do que se tem até aqui considerado.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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[i] Franchetti, 1995.
[ii] Martins, 1991, p. 411.
 [iii] A ideia está também em Antero de Quental. Comparece, p. ex., na famosa conferência do Casino e no final da vida do poeta, quando, por ocasião do Ultimatum, Antero publica um texto intitulado justamente “Expiação”.
[iv] Martins, 1909, p. 43.
[v] Martins, 1991, p. 61.
[vi] Martins, 1991, p. 67: “A separação de Portugal foi um fato consumado, graças ao valente, medíocre, tenaz, brutal e pérfido caráter de Afonso Henriques”.
[vii] Martins, 1991, p. 303.
[viii] Martins, 1909, p. 234.
[ix] Martins, 1909, p. 235.
 [x] Cf. António Sérgio, 1973. O estudo de Sérgio se constrói sobre o estabelecimento de cisões dicotômicas na obra de Martins, segundo o mesmo esquema com que o ensaísta abordara a de Antero. Também Martins teria uma “alma essencialmente mórbida e contraditória”. De um lado, republicana e antimonarquista; de outro, cesarista; no plano da escrita, uma face da moeda seria o artista e a outra, o historiador. A predominância do artista sobre o historiador faria com que, no quadro da História de Portugal, como nem sempre a per­sonagem mais adequada ao estilo (isto é, a mais dramática) fosse a mais típica ou a mais importante de um dado período, a verdade fatual do texto histórico ficasse prejudicada.
 [xi] Martins, 1909, p. 236.
 [xii] A frase de Herculano se encontra na carta a OM datada de 25 de dezembro de 1872, repr. in: Herculano, s/d. Na sequência do texto, Herculano discute exatamente o caso do inverno russo de 1812, que comparece na passagem adiante citada de Oliveira Martins. A propósito desta passagem, escreve Vitorino de Magalhães Godinho: “ele não via, como viu um Oliveira Martins, que o encontro de duas séries deterministas é que não é determinado, porque dependem de sistemas e referências diferentes” (apud Carvalho, 1992, p. 508).
[xiii] Quanto às ideias de Cournot, ver: Cournot, 1975, pp. 33-45 e Cournot, 1982. Há uma interessante introdução às ideias de Cournot e das suas implicações para a teoria da história em Anderson, 1992, capítulo 2, pp. 28-48. Quanto à concepção martiniana de que se aproximava o fim da história, ver a “Advertência” de 1891 a Martins, 1958: “Não existe matéria de história, quando não há caracteres acentuados: assim sucede nos tempos obscuramente primitivos das civilizações, e também nas épocas não mais claramente coletivas dos nossos dias, em que tudo volta a ser anônimo, como no princípio. Há então apenas fatos e matéria própria para escritos didáticos, análogos aos referentes à natureza inorgânica ou animal (...)” (p. 2).
 [xiv] Martins, 1928, p. xiii.
[xv] Martins, 1928, p. xiii e p. xiv.
[xvi] Martins, 1928, p. xv.
[xvii] Martins, 1928, p. xvi.
[xviii] Martins, 1928, p. xvi.
[xix] Martins, 1928, p. xvi.
[xx] Martins, 1928, p. xv.
 [xxi] O desaparecimento progressivo dos heróis entre o final da segunda dinastia e todo o período da terceira reflete-se em todos os aspectos da narrativa e é evidente na forma de intitular os capítulos, como mostra Isabel de Faria e Albuquerque, 1988, p. 121.
[xxii] Saraiva, 1995, p. 111.
[xxiii] Trata-se de Macedo, 1988.
[xxiv] Saraiva, 1995, p. 122.
[xxv] Saraiva, 1995, p. 103.
[xxvi] É essa, do ponto de vista que ensaiamos aqui, a explicação para o deslocamento do Navegador para depois dos seus irmãos. A propósito do D. Henrique, vale a pena referir uma passagem de Os Filhos de D. João I, na qual o caráter do herói como encarnação da vontade coletiva aparece plenamente. Trata-se da reunião do conselho em que D. Henrique defendeu e fez prevalecer a tese de que Tânger deveria ser tomada: “– Bem sei que a gente é pouca, mas Deus ordena! Ainda que fosse menos, iria por diante. E saiu como um Fado, automaticamente. Sempre que o Inconsciente, apossando‑se de um homem, faz dele o veículo da alma de um povo, criando‑o herói, a humanidade que se compõe de inteligência e amor sofre. D. Henrique era um destino: por isso era cego e desapiedado”  (Martins, 1958, p. 225).
[xxvii] De fato, os presentes nas Quinas tiveram destino triste e sofrido. E Diogo Cão, após a glória das primeiras descobertas, caiu em desgraça junto à corte.
[xxviii] Pessoa, 1912.
[xxix] Martins, 1958, p. 15.
[xxx] Martins, 1958, p. 23.
[xxxi] Martins, 1958, p. 20.