Mostrando postagens com marcador Ferreira Gullar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ferreira Gullar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre o Poema Sujo



Depoimento
(sobre o Poema Sujo, de Gullar)


Texto publicado com o título “Marcas de uma voz - sobre a poesia de Ferreira Gullar”, em Rascunho, v. 77, p. 8, 20 set. 2006.


Quando um poeta adquire voz própria, basta um trecho de verso, uma imagem ou um torneio de frase – ou, às vezes, uma única palavra, como é o caso de João Cabral – para que o leitor reconstrua, como um arqueólogo, a partir desse fragmento, o todo no qual ele se encaixa e ganha plena significação. E, no sentido inverso, basta uma palavra, imagem ou trecho de verso num poema qualquer para que uma determinada obra, que lhes fixou um sentido pleno, seja imediatamente conotada. Creio mesmo que essa capacidade de redimensionar o patrimônio comum, dando-lhe uma feição própria, por meio da invenção ou domínio da arte, está na base da distinção entre poetas maiores e menores.
Nesse sentido, Gullar é poeta maior, como Drummond e João Cabral: tanto faz que a porta de entrada tenha sido os primeiros livros, ou alguma passagem da sua obra completa, folheada a esmo. Lidos uns poucos poemas, será logo reconhecível a sua configuração pessoal.
As variações de disposição do seu verso na página são muitas. Nos primeiros livros de Gullar, o verso livre era utilizado de maneira típica: para ressaltar a sonoridade, para enfatizar sentidos ou para representar iconicamente o que estava sendo dito. Após um breve intervalo concretista, no qual a espacialização praticamente substituiu o ritmo da fala e se ostentou, como é de regra, a si mesma como traço principal do significado, veio uma também breve etapa de poesia “popular”, em que os versos se espremem no molde rígido da redondilha maior. Mas já a partir de Dentro da noite veloz (1975) isola-se e afirma-se a forma particular do verso do poeta: a partição da frase em segmentos breves, de intenção icônica, semafórica ou simplesmente rítmica.
Em cada uma dessas “fases”, porém, a sua poesia nunca se afastou muito da fala, nunca deixou – exceto talvez no período concreto – de ter as marcas da sua voz. De ter, portanto, uma dicção muito específica.
Num de seus últimos livros, Muitas vozes, lê-se “meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido”. Mas quando se apura o ouvido, o que se percebe? Percebe-se, como nessa estrofe, que, embora os versos tenham extensão muito variável, as frases se organizam naturalmente em metros tradicionais. Aqui, por exemplo, temos um decassílabo heróico seguido do seu “quebrado”, isto é um verso que combina ritmicamente com o maior, por ter uma acentuação coincidente: no caso, um hexassílabo.  
Por conta disso, Gullar acrescenta muito aos seus poemas, quando os lê. A sua entonação, marcada por certa ênfase oratória, apóia-se nas pausas sintáticas e no ritmo corpóreo da fala, submetendo a superfície do desenho do poema na página, fazendo que as quebras de linha nada representem para a voz que as junta e separa segundo a respiração e o sentido. E de tal forma parece convincente essa forma de tratar o ritmo do poema que, uma vez ouvida a sua leitura, fica difícil não tornar a ler outros versos dele sem ter, como padrão e bússola, aquela cadência, aquela entonação.
Ou seja, a sua é uma poesia escrita para ser lida em voz alta, de modo a ressaltar a sua base sobre a qual opera as variações: os metros preferenciais da tradição, aqueles cujo ritmo, ao longo dos séculos, tornou-se quase uma segunda natureza, um laço que por si só une o presente e o passado, conotando a permanência da poesia.
            Depois de tal leitura, olhando o poema na página, percebe-se o outro lado da moeda: a distribuição espacial própria de Gullar é um desenho outro, no qual os olhos recortam sentidos que não se mantêm, que não subsistem no leito do rio principal da leitura, mas que funcionam como harmônicos (redondos ou dissonantes) a sugerir os rumos perdidos ou desprezados em nome do movimento principal. É do contraponto entre o que diz essa distribuição dos versos no papel – com os silêncios e os pequenos suspenses introduzidos pelas manchas em branco e com os alinhamentos de termos equivalentes ou contrastantes em posições semelhantes – e o que diz a leitura de acordo com as pausas sintáticas e semânticas da oralização que resulta boa parte da beleza de poemas como “A casa” e “Uma fotografia aérea” – este último, talvez, a sua obra-prima.
            Também do ponto de vista dos temas e imagens, Dentro da noite veloz é um momento de cristalização: a fruta que apodrece no prato, o rastro de açúcares deixado na memória por outra fruta, o rato, o cheiro de gente, o alinhavar de ações quotidianas, destacando a sua concretude sensória, a atenção ao imperfeito, ao sujo, a tudo o que traz a marca da luta do homem pela vida. E também a celebração da solidariedade e o registro do espanto enternecido frente à beleza possível.
Esse é o tom específico da poesia de Gullar, que mesmo nos momentos em que se deixou empalidecer perante o imperativo de programas poéticos ou políticos sempre se manteve num patamar dos mais altos da nossa contemporaneidade.
No que toca aos temas e à forma própria do verso, o Poema sujo estava todo nos livros anteriores e não trazia novidades, exceto por ser uma espécie de amplificação e sistematização exaustiva, num tempo no qual a brevidade parecia uma das características principais da poesia moderna.
            Tenho ainda o meu exemplar, comprado no calor da hora. É um livro de formato especial, retangular, orientação paisagem (como hoje se diz, por conta do computador). Uma edição numerada: o meu é o 0452. Lembro-me do clima político e da expectativa do lançamento: o poeta ausente, compondo no exílio a evocação da terra natal e do país perdido. Ênio Silveira escrevia, na penúltima capa, que aquela publicação era o marco decisivo da sua carreira de editor. Vinicius, na contracapa, que era o mais importante poema da década no Brasil e talvez do mundo. O frenesi era grande.
            Li o livro de uma só vez. Depois ainda o reli. Mas não me entusiasmou tanto quanto eu queria que me entusiasmasse. As passagens que reproduziam os ruídos modernos, à maneira dos futuristas, as lembranças da infância pobre no Maranhão, a citação de Marx, a ressurgência por demais palpável de Cabral (que já vinha, aliás, do livro do ano anterior) – tudo isso se enfeixava num conjunto de versos menos potente do que Dentro da noite veloz. Foi o que anotei, à margem, ao longo da leitura.
            Agora o Poema sujo faz 30 anos. Leio-o novamente para redigir estes apontamentos e sinto que ainda me interessa mais nele o que já não posso, senão de modo pálido, recuperar: o que, no momento, não era ainda o poema, mas o sentido, nos tempos finais da ditadura, do seu lançamento. Fora isso, nesta revisitação destacou-se, junto com o reiterado ubi sunt?, tudo aquilo que dá ao volume o caráter de apanhado de procedimentos centrais de poesia madura: sobretudo o que ecoa nitidamente, inclusive em detalhes, o poema da fotografia aérea, bem como o da casa e outros da arte maior da obra precedente.
A impressão geral de hoje não se diferencia muito, portanto, da que tive na primeira leitura.
            É possível pensar que o Poema sujo seja o ponto alto da poesia de Gullar. No sentido de ser um momento de solidificação, de balanço e resumo de uma poesia que se libertara do peso excessivo que para ela foram os caminhos da vanguarda e os descaminhos da poesia populista, e que exercitava, num poema longo, a sua inteira força. Por isso, é bom que seja devidamente celebrado. Como invenção e construção poética, entretanto, ainda sinto que o marco é Dentro da noite veloz.