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sábado, 21 de abril de 2012

Inútil Poesia - resenha


Inútil Poesia




Jornal (1)
- resenhas e relatos -

Ao longo do ano de 2000, Alcir Pécora e eu mantivemos, no jornal Correio Popular, de Campinas, uma página de crítica literária. De circulação semanal, não era restrita à resenha, mas tinha um compromisso com o comentário dos livros que iam aparecendo – especialmente os que se destinavam a público mais amplo do que o acadêmico.
Agora, ao começar este blog, ocorreu-me transcrever alguns dos textos que assinei ali, já perdidos no tempo: aqueles que abordam questões que ainda interessam, de uma forma ou outra, doze anos depois.
Começo esta série pela resenha que segue.


Inútil Poesia (São Paulo: Companhia das Letras, R$ 32), de Leyla Perrone-Moisés, traz uma combinação de virtudes. A boa cultura acadêmica, a preocupação formativa própria do docente universitário, a vontade de informar e aliciar o leitor – tudo isso se combina, em medida vária, nos 41 textos breves, escritos para jornais ou apresentados em congressos, e que enfocam, numa linguagem acessível e elegante, problemas, temas e autores muito variados.
            O leitor não especializado lerá com proveito seus comentários agudos sobre a vida, a obra e a história crítica de vários escritores. O especialista tampouco se decepcionará. Uns e outros lerão com igual prazer, por exemplo, os artigos sobre Balzac, Lautréamont e Cesário Verde, e ainda os dedicados a Genet/Fassbinder, Guimarães Rosa e Francis Ponge.
            No ensaio que dá nome ao volume, a autora trata do sentido geral da poesia de Mallarmé a partir de uma experiência de aula, na qual seus alunos reagiram mal ao poema Um lance de dados. Esse ensaio traz um dos motes do livro: a proposição e defesa do valor crítico da grande obra literária como atividade gratuita e questionadora da corrupção da linguagem utilitária do dia a dia e das "relações humanas" que por ela se expressam. A segunda parte dessa atividade crítica é a que recebe a maior atenção da autora, ao longo do livro, e é assim formulada, num ensaio sobre Antonio Candido: "a obra literária é sempre uma leitura crítica do real".
Uma proposição tão geral não faz muito sentido. Ou melhor, só faz sentido como receita ou como expressão de desejo: quem a escreve quer dizer que prefere as obras que sejam assim, ou que gostaria que todas as obras fossem assim. Quando tal frase ocorre num contexto crítico, significa também uma proposição de trabalho: quem a escreve julga que é importante descobrir, em cada obra, o que nela existe de crítica, de contraposição à "realidade". No caso de Perrone-Moisés, creio que também significa que o seu pensamento está buscando agora uma síntese entre o olhar orientado pelo estruturalismo francês (e seus desdobramentos desconstrutivistas) e a perspectiva sociológica, que enfatiza o valor pragmático da literatura.
Ora, ao admitir um "real" independente da linguagem, a crítica permite-se interpretações e julgamentos de valor baseados na adequação vida/obra ou outra encarnação do velho contraponto texto/contexto. E ao pensar "a" literatura como "crítica do real", além de postular uma essência literária a-histórica, ainda a reduz a uma fórmula de valor estritamente moderno. Daí a ler o passado como equivalência ou prefiguração do presente, é um passo. Não são muitos, felizmente, os tropeços: no ensaio sobre Pessanha, passa-se da sua vida à sua obra sem mediações, numa espécie de psicanálise selvagem; no ensaio sobre Cesário Verde, Perrone-Moisés julga "artificiais" os seus primeiros poemas porque as mulheres que retrata não existiriam em Lisboa. Quanto ao anacronismo, não me parece pertinente ver Bouvard e Pécuchet como "antropófagos", à maneira de Oswald de Andrade; nem Balzac como "profético" quanto ao nosso tempo, inclusive quanto à estrutura hipertextual da sua Comédia Humana; ou ainda ler o abandono da literatura por Rimbaud como intuição precoce do "suicídio da arte", "previsto no próprio programa da modernidade".
O outro mote do livro é a defesa de certo cânone. Não é apenas nos artigos finais, de escopo teórico, que a autora se insurge contra as modernas modas críticas e a incultura produzida pelos estudos culturais. Seu cânone é o do alto Modernismo e ela se bate por ele a cada passo. Por exemplo, escrevendo sobre Raul de Leôni, adverte que o reconhecimento do valor da sua poesia não deve pôr em questão "as conquistas imediatamente posteriores das vanguardas, definitivas e de conseqüências infinitamente maiores para a poesia brasileira de nosso século". Complementarmente, ao estudar Cesário, escreve que, "se o que caracteriza a poesia da modernidade são as categorias negativas (Friedrich), o antagonismo à sociedade (Adorno) ou mesmo a associalidade (Barthes), Cesário seria uma embaraçosa exceção". Ou seja, aceitando os pressupostos da narrativa e da escala de valores canônica, esforça-se para impedir que o reconhecimento do valor da obra não-canônica os enfraqueça. Ao mesmo tempo, afirma sua liberdade, ao impedir que o seu movimento de combate pelo cânone sufoque a possibilidade de ver qualidades no que lhe é externo ou mesmo hostil.
No exercício dessa particular liberdade de leitora pautada pelo cânone reside o seu ideal de literatura. O que é o mesmo que dizer que é a fixação dos limites que define a real liberdade e a diferencia da anomia e da anarquia. É sobre esse ponto que também se ergue a sua postulação da utilidade social da "literatura literária" (sic) e da sua necessária contraparte, a leitura balizada por uma tábua de valores compartilhados pela comunidade das pessoas cultas. "A escrita e a leitura literárias são exercícios de liberdade", escreve a autora. Mas não nos devemos enganar pelo apelo romântico da palavra e por certa nostalgia que percorre o volume. A última razão do livro é um argumento humanista de sabor pré-romântico, iluminista: "a literatura deve ser ensinada porque atua como organizadora da mente e refinadora da sensibilidade, como oferta de valores num mundo onde eles se apresentam flutuantes" (p. 351). Talvez esse irredutível humanismo ilustrado, sem carregar muito nas tintas dos bons velhos tempos, seja a melhor forma possível da difícil convivência da visada realista/sociológica com as modernas perspectivas formalistas. E talvez também seja ele o responsável pela grande simpatia com que esse livro está sendo acolhido tanto pelos mais velhos, quanto pelos mais jovens dos seus leitores.

[Publicado na página Livros, no jornal Correio Popular, em 17/12/2000]