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terça-feira, 9 de maio de 2017

Reflexões intempestivas: crítica literária

Crítica literária: algumas reflexões intempestivas

[texto lido na Academia Brasileira de Letras, em 11 de agosto de 2015
- há gravação disponível em https://www.youtube.com/watch?v=0vYP5eDewVo ]

            Gostaria de começar estas reflexões com algumas perguntas que me fiz e ainda me faço, com mais frequência, com o passar dos anos. Ou seja, gostaria de começar pela exposição de algumas angústias que foram tomando corpo ao longo do tempo, até que me conduziram ao relativo impasse em que hoje me encontro – que, entretanto, não julgo ser algo apenas pessoal, mas de caráter amplo.
            Essas questões, creio, se apresentam desde sempre a quem pretenda dedicar-se com seriedade à crítica literária. Nos últimos 30 anos, porém, parece cada vez mais difícil de encontrar uma boa resposta, que satisfaça a premência das perguntas.
            A primeira delas é: para que escrever crítica literária? A segunda, correlata, é: para quem escrever, quem é o destinatário preferencial do discurso crítico? E ainda uma terceira, intimamente ligada às anteriores: onde escrever crítica literária?
            Creio que, pelo menos até meados do século passado, essas questões encontravam respostas mais fáceis entre nós. De fato, quando tinha plena força o imperativo nacionalista, quando o norte da vida cultural era identificar, construir ou promover a identidade nacional, a literatura ocupava um lugar de primeira importância, sendo a educação literária considerada essencial para a formação do cidadão completo.
            Nesse quadro, a atividade crítica tinha um lugar relevante por princípio, pois era a crítica o instrumento que orientava, avaliava e promovia a criação literária em função do objetivo maior de particularizar, representar e interpretar a realidade nacional.
            A literatura e sua crítica, assim, integravam um esforço amplo, que se poderia definir como o esforço de construção de normas, de padrões civilizacionais que não só definissem, mas também promovessem a unidade nacional, enfrentando o fantasma da fragmentação cultural e política do vasto território.
            Num momento em que sequer a língua portuguesa era hegemônica em parte significativa do país, tornou-se uma tarefa urgente para a intelectualidade moderna formar não apenas um substrato cultural comum, que garantisse a integração do Brasil no Ocidente (e o esforço nesse sentido foi imenso e amplo, como se pode ver, entre outros Casos, pela profusão das conferências do final do século e pela atividade editorial e literária de Lobato) – mas também criar ou afirmar um padrão linguístico, uma norma de ampla difusão e adoção.
            Boa parte da carreira de Olavo Bilac, por exemplo, foi dedicada a essa tarefa. A leitura das suas conferências e discursos mostra a que ponto a ameaça da fragmentação do país – apresentada como provável inclusive numa crônica de Eça de Queirós, quando da implantação da República – ocupou a sua imaginação e dirigiu a sua atividade de publicista. A campanha pelo alistamento militar obrigatório era, para ele, sobretudo uma campanha pela hegemonia da língua portuguesa. E a obsessão com a gramática e a correção parnasiana marcaram o período. A tal ponto que, como se sabe, a maior polêmica sobre o Código Civil não se deu em torno de princípios jurídicos, mas da propriedade da redação do documento.
            Em muitos sentidos – tanto no gosto literário, quanto no ideal de escrita formal – o Parnasianismo foi triunfante, e ainda na instituição escolar, e também na burocracia do Estado e na tradição linguística jurídica, cujo transbordamento para a literatura ainda hoje alguns satirizam com a denominação “bacharelesca”.
            A questão literária não poderia ter ficado alheia a esse imperativo de construção da norma. Até mesmo para Mário de Andrade as vantagens da existência de um padrão culto fixado pela tradição eram claras, como se vê num artigo de 1939, denominado “Feitos em França”. Nesse texto, que merecia ser mais divulgado, Mário narra sua experiência de ler, traduzidos para o francês, contos de escritores brasileiros pelos quais não tinha grande consideração. Em francês, pareceram-lhe alguns francamente bons. Em português, não se sustentavam. A conclusão de Mário foi que a norma literária francesa oferecia uma garantia de qualidade média que, no Brasil, não havia, tendo cada escritor de inventar a sua língua.
            Por não ser um texto conhecido, vale talvez a pena transcrever um trecho. Este, em que Mário diz:

            Não é possível a gente ser claro, pois não há uma claridade normalizada de expressão e cada um é claro só para consigo mesmo; não é possível ser sutil, pois que tudo são sutilezas de um individualismo desbragado; não é possível elegância onde não há conformidade; não é possível vigor verdadeiro, certeza, mecanismo, abstração, pois que tudo é sumarento, é desregramento, desobediência e espontaneidade.[1]
                       
            É contra o pano de fundo desse trecho que creio devemos ler um seu artigo mais conhecido, “A língua viva”, no qual distingue duas modalidades de língua culta: a fixada pela tradição e que deve ser empregada na filosofia, no direito e na ciência e que extrai da sua fixidez o seu valor principal; e a literária, que se move sobre a norma (com o conhecimento da norma) e sobre ela atua, inovando segundo a necessidade do assunto ou do tom.[2]
            Nesse quadro e nessa época, a função da crítica parecia clara a Mário. Podemos ver qual era essa função, entre outros locais, no artigo “A raposa e o tostão”, também de 1939.[3] Como aí se lê, a crítica teria como pressuposto importante a questão nacional: “na literatura – diz ele logo de início – é toda uma falange de poetas e prosadores que, de norte a sul, unificam o país dentro da mesma força criadora e da mesma riqueza de manifestações variadas”.
            Hipostasiando a intenção de unidade nacional, Mário atribui à crítica, antes de tudo, no seu momento, uma função seletiva. Caberia a ela identificar, no meio da aluvião de obras em que, a falta de domínio técnico e conhecimento da língua culta produzem efeitos de pouca importância, aquelas que de fato sejam relevantes para desenhar a imagem da cultura de uma fase.[4] Ou seja, ainda aqui se juntam de modo íntimo a questão da identidade nacional e a questão da língua.
            Esta última, como verá quem quer que percorra um bom número de páginas reflexivas de Mário, é obsessiva para ele. E seu diagnóstico constante da maturidade conclui pela falta, como, por exemplo, em “Polêmicas”, onde lemos: “A língua portuguesa (...) é uma língua inculta”, “não me parece suficientemente cultivada pra servir de expressão às ideias abstratas!”[5]
            Estas considerações, entretanto, não devem fazer supor que o nacionalismo de Mário de Andrade fosse simples ou que ele julgasse que “a imagem da cultura de uma fase” fosse uma imagem de algo como uma essência nacional. De fato, um dos defeitos que Mário aponta, em 1931, na crítica anterior ao seu tempo é o de tentar, de formas diversas, “enxergar o que não existe ainda, a nação”.[6] Ou, como diz nesse mesmo texto, “não é tempo ainda de compreender a alma-brasil por síntese”.[7]
            Não vou prosseguir no exame da questão até chegar ao texto O movimento modernista, de 1942. Mas ainda aí se pode ver a premência da questão da língua culta literária e, de corpo inteiro, o nacionalismo ativo em sua versão antilusitana, pois o ideal de Mário de Andrade, em termos linguísticos, parece ser aqui o que ele denomina “identidade brasileira” e que teve um bom momento quando os românticos operaram (nas suas palavras) um “esquecimento da gramática portuguesa, que permitiu muito maior colaboração entre o ser psicológico e sua expressão verbal”.[8]
            Nas décadas seguintes, que são as do segundo pós-guerra, assistimos no Brasil a um enorme desenvolvimento da instrução universitária e à constituição dos primeiros órgãos de conservação e promoção da cultura. Assistimos também à concomitante e impressionante expansão dos meios de comunicação de massa – cuja relevância para a normatização linguística fora já percebida com muita acuidade por Mário, que publicou em 1940, um artigo de grande interesse, intitulado “A língua radiofônica”.[9]
            A expansão da instrução foi, entre nós, acompanhada do fortalecimento de uma intensa atividade crítica no interior da universidade, que em grande parte deu continuidade às preocupações de Mário de Andrade, adotando, no que diz respeito à construção do nacional por oposição ao estrangeiro (e ao português, em especial), o ponto de partida firmado pelo escritor modernista na conferência-testamento a que acabo de me referir.
            Ou seja, a literatura – sua história e sua crítica, embora menos a questão linguística – continuou a ser uma das vias de acesso e inteligibilidade do que seria a especificidade brasileira.
            Com mais ênfase na face sociológica, a corrente interpretativa mais prestigiosa da segunda metade do século XX, irradiada a partir da Universidade de São Paulo, ainda buscava, por meio da literatura, para retomar os termos de Mário de Andrade, “revelar a cultura de uma fase e lhe desenhar a imagem”. Mas não qualquer imagem, está claro: desenhar a imagem da construção do ser nacional, em dado momento, não raro procedendo ao que Mário dizia não ser possível em 31, ou seja,  “compreender a alma-brasil por síntese”.
            Essa tradição operou uma seleção de objetos conformes ao seu pressuposto, e definiu um repertório que serviria de parâmetro de avaliação crítica de toda a história moderna da literatura brasileira.[10]
            Antonio Candido, num texto pouco eficaz como interpretação, mas muito ilustrativo do pressuposto – o célebre ensaio sobre O Cortiço – deu a melhor definição à forma de operar da corrente crítica de que é o maior expoente, espelhando no seu objeto (isto é, a literatura do século XIX) o imperativo de ter, em sua elaboração, “o Brasil como intermediário”.[11] Isto é, de ser feita sempre sob a injunção de fornecer uma “representação do Brasil como um todo”.
            E não creio que seja preciso sequer lembrar que desse tronco proveio o ramo mais radical de vinculação entre produção literária e conhecimento da vida social brasileira, fazendo inclusive derivar do segundo a capacidade de compreensão e apreciação plena da primeira, que é o constituído pela obra de Roberto Schwarz.
            Não é o caso de discutir aqui essa vertente, embora seja quase impossível não o fazer, em alguma medida. Mas o que me interessa é marcar que, até as décadas finais do século XX, a literatura ainda ocupava um lugar privilegiado na vida cultural do país. Não apenas porque sucessivas propostas de leitura do nacional a colocavam no centro do interesse, mas também porque a expansão universitária gerou um enorme contingente de pessoas ávidas de cultura, pois as faculdades de Letras e Ciências Humanas abriram o maior número de vagas de ensino superior, com vistas principalmente à formação de educadores. Daí provém o momento de esplendor da imprensa cultural no país, no qual as perguntas que apresentei no começo desta palestra tinham respostas variadas e otimistas.
            Não só a produção de livros vinha aumentando muito desde os anos finais do Estado Novo, mas ainda a indústria cultural (por meio da venda em bancas, como as realizadas pela Editora Abril) oferecia farto material cultural em português, para atender à demanda generalizada pelo interior do país. Daí que a atividade crítica e formadora da universidade dispusesse de público amplo a ponto de sustentar a publicação, em cada grande jornal da época, de páginas específicas e mesmo de alentados suplementos de literatura e cultura, onde a crítica tinha um lugar de destaque. Basta lembrar, entre tantos, os suplementos do Jornal do Brasil, do Estadão, do Correio Paulistano e, mais recentemente, da Folha de São Paulo. Ao mesmo tempo, as antologias, as coletâneas de crítica literária e os livros de história de literatura tinham um público pela primeira vez aparelhado culturalmente e disseminado pelo interior do país, e não concentrado apenas nas grandes capitais.
            Entretanto, esse quadro – que ainda provoca muito discurso nostálgico – mudou rapidamente na virada para este século. E as consequências da mudança se tornaram mais agudas nas últimas décadas. 
            Mas antes das consequências, queria especular um pouco sobre as causas delas. E creio que as causas são basicamente a perda da relevância social da literatura, com o deslocamento dos debates sobre a nação para outras esferas da produção intelectual, a onipresença da indústria cultural, o baixo nível de escolarização e a má preparação para a leitura e para o acesso ao mundo da cultura. Pela conjugação desses fatores, não só o interesse pela literatura do passado diminui brutalmente a cada ano, mas a escola – que sempre foi o lugar de preservação e de disseminação da literatura – passou a ser pautada, no Brasil, por uma agenda rigorosamente antiliterária.
            Quando se observam os parâmetros curriculares, a desimportância contemporânea da literatura como matéria de estudo é gritante. E basta observar de que modo ela comparece no ENEM para verificar que hoje, diferentemente do que ocorria há apenas algumas décadas e ainda ocorre isoladamente nas principais universidades paulistas, os responsáveis pela definição do conteúdo mínimo para habilitar um cidadão ao pleno exercício da cidadania não consideram que a literatura deva ter algum peso diferenciado. Pelo contrário, a interpretação de texto se faz em cima do conhecimento comum da língua, sem apelo à diversidade de tempo e de espaço presente nas obras do passado.
            De meu ponto de vista, isso resulta de uma ação continuada e constante para a desvalorização das modalidades de discurso que Mário de Andrade chamava de “língua culta” e “língua literária”. A hegemonia dos estudos linguísticos nas universidades e a aniquilação prática de disciplinas ligadas à codificação da “língua culta”, aliada à vulgarização esquerdista dos lemas dos estudos variacionistas, brandindo a acusação de “preconceito linguístico” contra qualquer esforço escolar de codificação da linguagem tradicional, produziram, no próprio interior da universidade, gerações de professores com grandes dificuldades de escrita e maiores dificuldades de manejo da língua para produzir textos reflexivos. Isso para não falar dos erros crassos de ortografia, regência e concordância – que fazem com que seja comum hoje ouvir, como elogio em bancas de mestrado e doutorado, que o iminente mestre ou doutor, “escreve corretamente” ou “escreve bem”.
            No campo dos estudos propriamente literários, juntou-se a outros fatores (por assim dizer externos), que levaram à perda da relevância social da literatura, a crítica sistemática ao cânone, exibindo o seu arcabouço ideológico.
            Não sendo mais útil como modelo de língua, a literatura ensinada na escola dependia de uma lista de obras e de um quadro de valores que as últimas gerações aprenderam a desmontar (ou desconstruir, se se preferir o termo) para exibir o seu viés eurocêntrico, falocêntrico, classista, heterocêntrico, racista etc.
            Em reação, o conjunto de obras definido ao longo dos anos pela tradição crítica passou a ser confrontado, como quadro de valores, com outros conjuntos, determinados agora não pelo papel determinante que tiveram em seu tempo e nas gerações seguintes, por meio da apropriação crítica e histórica, mas pelos valores que orientaram a crítica e o desmonte do cânone: literatura gay, queer, negra, operária, de testemunho, feminina, feminista etc.
            E por fim, como consequência da corrosão a que se submeteram as questões que, desde o Romantismo, sustentavam a relevância do estudo da literatura, na universidade afirma-se uma modalidade discursiva acadêmica que não é sobre a literatura, mas “a pretexto” de literatura. Refiro-me, evidentemente, àquele tipo de discurso que eliminou a expressão “da literatura” do seu nome e se apresenta sobranceiramente apenas como “teoria”. Essa Teoria, com maiúscula, é uma das consequências do nivelamento da literatura, enquanto objeto, às demais práticas culturais de um tempo. Entre nós – como talvez em outras partes – tem consistido na prática da glosa do teórico da vez, e estimulado um tipo de discurso sobre a literatura que não pressupõe, a rigor, nem mesmo o conhecimento do quadro histórico em que se produziu o seu objeto, ou as leituras que dele se fizeram nos tempos subsequentes.
            Curiosamente, porém, talvez por isso mesmo, é um discurso que tem pouco a dizer sobre os objetos do presente e um dos menos aptos a dizer algo para além do círculo estreito dos adeptos, por conta não só do jargão específico, mas também porque, consistindo basicamente de metáforas interpretativas retiradas de um conjunto de autores da moda, seu interesse se apaga rapidamente, conforme sua fonte perde proeminência ou é suplantada por um produto novo.
            Portanto, no interior da universidade, neste momento – para além daquelas formas de trabalho que têm na inércia e no apego à nostalgia a sua justificação – a reflexão sobre a literatura e sua abordagem nos cursos de graduação e de pós-graduação, experimenta uma crise de grandes proporções e desenvolvimentos imprevisíveis para a definição do campo.
            Isso porque, tanto no que diz respeito à língua, quanto no que diz respeito ao valor das obras, o estudo da literatura não parece continuar sendo uma forma privilegiada de acesso à nacionalidade (conceito hoje submetido hoje igualmente à corrosão da crítica) ou a uma base cultural comum sobre a qual se assentaria a nacionalidade.
            Quanto a isso, creio que se possa mesmo dizer, nos dias de hoje – parafraseando Mário de Andrade –, que a crítica, quando exercida além dos interesses imediatos do marketing ou da mera obtenção de um título universitário, só nos consegue fazer “enxergar o que já não existe, o projeto de nação”. E não é só isso: junto com a justificativa romântica para o estudo da literatura desfaleceram também os pressupostos iluministas de valorização abstrata da cultura e de que a literatura era um dos caminhos para a integração do jovem país na civilização.
            No momento, creio que são estes os impasses principais da crítica literária no interior da universidade. E como, no Brasil, a quase totalidade dos críticos que escrevem hoje em jornais e revistas literárias é constituída ou de alunos ou de professores ou aspirantes a professores universitários, a crise da crítica universitária é também – em nível mais descorado por conta do compromisso do lugar da escrita e da sua destinação – a crise da crítica em geral.
            De fato, basta percorrer os jornais e revistas da grande imprensa ou da imprensa alternativa para perceber como é recorrente a ânsia de glosar os lugares estabelecidos pelos discursos acadêmicos mais prestigiosos, ainda que disso resultem textos contraditórios ou incongruentes. E é curioso observar outra consequência da extração acadêmica: a imagem de respeitabilidade crítica se faz por meio da curiosa mistura do olhar desdenhoso que a universidade ainda lança sobre o campo do presente com o esforço historizante, que busca substituir o debate sobre objetos pela proposição de linhas de filiação nas fontes canônicas eleitas e celebradas pelas versões hegemônicas do desenvolvimento da literatura nacional.
            A principal consequência, do meu ponto de vista, é a acentuada rarefação do embate crítico nos textos destinados ao público em geral. Dominam ali a paráfrase ou a transcrição, em mosaico, das formulações metalinguísticas da própria obra ou do discurso do autor sobre si mesmo, presente em entrevistas, artigos e depoimentos, combinada em medida vária com  um apanhado dos lugares-comuns da historiografia ainda dominante, de modo a "explicar" o objeto pela filiação a um deles, como decorrência ou contraposição. Dessa conjunção brota, de regra, um discurso plano, levemente acadêmico e tedioso, cujo atrativo principal é dar a notícia e servir de resumo ao que está presente na própria obra e nos seus paratextos.
            O resultado imediato é a anemia e o desinteresse que caracterizam a maior parte da produção brasileira que enfoca os textos literários do presente, que se mostra incapaz tanto de real enfrentamento com os objetos do passado, quanto de abordar de modo produtivo os problemas imediatos da cultura contemporânea e, principalmente, de lidar com a questão do valor literário – cuja ausência inviabiliza qualquer discurso que se pretenda incluir na denominação “crítica literária”.
            Ao mesmo tempo, vivemos uma época cheia de eventos literários: sucedem-se concursos, saraus, conferências, congressos, feiras – multiplicam-se instâncias onde o escritor aparece mais do que a sua obra, e que lhe rendem, frequentemente, mais retorno financeiro do que os livros publicados. O fortalecimento e internacionalização do mercado livreiro é um fato. E a espetacularização da figura do escritor – muitas vezes em detrimento da própria obra – é inegável.
            Daí decorre um último grau de abastardamento crítico, talvez não dos menos lucrativos, que é a sua redução a dublê de parafraseador e cortejador dos vários lugares do poder intelectual e de colunista social ou agente secundário de marketing, capaz de ocupar, assim, os cada vez mais reduzidos espaços destinados à crítica literária na grande imprensa.
            Se eu fosse mais otimista em relação à universidade, ousaria esperar que dali surgisse uma energia nova, capaz de repor a crítica literária num lugar de relevância no panorama da cultura. Se fosse menos pessimista com relação aos efeitos profundos da continuada decadência do ensino das humanidades no Brasil, em todos os níveis, poderia esperar que a formação de um público mais aparelhado culturalmente terminasse por provocar o surgimento de uma crítica ativa, que tivesse como real interlocutor o leitor inteligente e culto espalhado pelas várias regiões do país.
            Como não sou, penso que terminamos por girar num trajeto fechado, que no final produz o que em outro texto tentei definir como “demissão da crítica”.[12] De onde virá, se é que poderá ainda vir, a força que impeça a continuidade do estado atual, não sei. Mas embora deseje que o panorama se altere rapidamente para melhor, a configuração geral da cultura no Brasil não me anima a arriscar bom prognóstico.




[1] Mário de Andrade. O empalhador de passarinho. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1972, p. 35.
[2] Recolhido em O empalhador..., p. 211 e ss.
[3] Igualmente, em O empalhador..., p. 101 e ss.
[4] A operação interpretativa que faço aqui é sobre este trecho de Mário: “E não está nisto a mais admirável finalidade da crítica? Ela não deverá ser nem exclusivamente estética nem ostensivamente pragmática, mas exatamente aquela verdade transitória, aquela pesquisa das identidades ‘mais’ perfeitas que, ULTRAPASSANDO AS OBRAS, BUSQUE REVELAR A CULTURA DE UMA FASE E LHE DESENHE A IMAGEM” – maiúsculas do autor. Cf. O empalhador...  p. 102.
[5] O empalhador..., p. 176-7.
[6] Mario de Andrade. “Tristão de Ataíde” (1931). Aspectos da literatura brasileira.  São Paulo: Livraria Martins Editora, 1972,  p. 8
[7] Mário de Andrade. Ib.
[8] Aspectos..., p. 244.
[9] O empalhador..., p. 205 e ss.
[10] A propósito, ver Flora Süssekind. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. p. 122: A exigência de uma sintonia nítida entre literatura e vida nacional, de uma literatura que ‘documente’ o que ocorre no país, aponta para o fato de a crítica literária brasileira ter sido geralmente ‘mais realista que o rei’. Não é só como programa literário de romancistas em momentos diversos de nossa história que surge o naturalismo. Ele tem sido, sobretudo, um parâmetro crítico. Normativamente tem servido para a exclusão e o esquecimento de escritores e obras menos documentais, e para o privilégio daqueles que ‘representem’ claramente a nacionalidade”.
[11] Antonio Candido. “De cortiço a cortiço”. Em O discurso e a cidade. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre azul, 2004, 3ª ed.
[12] http://paulofranchetti.blogspot.com.br/2012/09/orgulho-e-preconceito.html

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

ENTREVISTA (A MIRHIANE MENDES DE ABREU)

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(Nota: Mirhiane teve o bom senso de reduzir a entrevista ao que lhe pareceu essencial, para publicar na revista Pessoa, em agosto de 2015. Mas esta é a íntegra da nossa conversa. Um ou outro ponto talvez tenha interesse.)
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[maio de 2015]
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1.       Você poderia descrever sua relação com livros e literatura na infância e juventude? Lembra-se de alguns dessa época que realmente o tenham entusiasmado?

Minha primeira lembrança de literatura são as leituras de contos breves, adaptados ou não, que meu pai fazia. O Tesouro da Juventude¸ no meu caso, correspondeu plenamente ao nome. Talvez por conta disso, os livros de que mais eu gostava eram as enciclopédias. Li uma delas, chamada Trópico, de uma ponta a outra – o que parece absurdo, mas me deu muita satisfação na época. E havia ainda a Delta Júnior e uma coleção russa de divulgação científica de que gostava muito.
Havia em minha casa dois livros preciosos, que me acompanharam por anos, sem que eu os pudesse entender muito: a Divina Comédia (presente em toda casa de descendentes escolarizados de italianos) e Grandes Poetas Românticos do Brasil (em quatro volumes encadernados em couro). O primeiro era, na verdade, um livro proibido, por conta das grandes ilustrações perversas de Doré. Mas talvez por isso mesmo era o mais desejado na ausência de vigilância. Já o segundo foi mais importante nos primeiros anos e talvez seja nele que tive de fato os primeiros prazeres propriamente literários.
Somente comecei a fazer leitura regular de literatura quando passei ao ensino médio. Livros eram artigos raros nas pequenas cidades do interior. Tive a sorte de ter pais leitores e, por isso, havia em casa uma estante simples, porém razoável, com a Coleção Saraiva quase inteira, muitos livros do antigo Clube do Livro, além de clássicos infantis e da obra de Conan Doyle – que foi, por muito tempo, minha leitura preferida. E outra sorte foi haver em Matão um caminhão-biblioteca itinerante, que uma vez por semana abastecia a mim e aos amigos com alguma boa literatura. Se a isso se somar o fato de que a banca de revista trazia todas as semanas algum livro novo, na coleção Os Imortais da Literatura Universal, da Abril, completa-se o quadro do que foi o universo literário até eu ir para a universidade. Mas o que me entusiasmou, de verdade, foi outra edição do Dante. Uma feita em dez volumes, bilíngue, da sua obra completa, com vastos comentários especialmente na tradução do Inferno. Lembro-me de que, ao longo do último ano do ensino médio, vivi mergulhado em Dante – e não só na Comédia, mas também no Vida Nova e no Convito. Estropiava o italiano que eu mal conhecia para sentir a sonoridade, tentava destrinchar toda a informação das notas e meditava sobre a monarquia como se Dante fosse meu contemporâneo...


2- Você se graduou em Letras e seguiu toda a formação nessa área. Que atrativo o curso de Letras pode oferecer na sua opinião? E, durante a sua carreira, quais foram as suas primeiras dificuldades como professor que poderiam ser compartilhadas com jovens profissionais (construir uma disciplina, seleção de obras, relacionamento etc)?


Quando resolvi fazer Letras, foi a maior decepção para os meus pais e família estendida. Afinal, ao longo do ensino médio eu me destacara na escola por ter ótimos resultados em Química e Física – especialmente no que dizia respeito à matemática. Assim, a escolha da profissão – embora na época não fosse tão desvalorizada e mal paga quanto hoje – foi um choque. Entretanto, escolhi com aquela segurança que só tem (quando se tem) aos dezessete anos. E não me preocupei com nada a não ser com a possibilidade da passar a vida entre livros, lendo e escrevendo. Um argumento decisivo para a escolha da profissão foi que, naquele tempo, os professores tinham 4 meses de férias, sem aulas. Eu imaginava os prazeres desse tempo ocioso, dedicado à leitura e à escrita.
Hoje eu sinceramente não sei que atrativos o curso pode oferecer além do prazer de fazê-lo. E, mesmo assim, tenho dúvidas quanto à carga horária e sua distribuição. A mim parece que há pouco estudo da língua escrita, da língua literária e da língua formal. A catequese linguística foi amplamente vitoriosa, do ponto de vista institucional, e a ideia de que é possível ensinar didática independente do conteúdo se combinou a isso em muitos lugares, de modo que sinto que temos formado pessoas com pouca habilidade de escrita e diminuto repertório propriamente literário e cultural.
Penso, por isso, que o curso de Letras vive um momento de aguda crise, na medida em que a literatura não é objeto de estudo sistemático no ensino médio. E como tampouco é objeto de atenção prioritária o domínio da chamada “norma culta”, creio que as faculdades de Letras vão ter de repensar muito em breve o tipo de profissional que estão ou não estão formando, e justificar a sua existência e os recursos que nelas são investidos.
Quanto às minhas dificuldades, temo que o relato não ajude muito aos novos profissionais, pois as condições eram tão diversas nos idos de 1975 (quando me formei), que pouco poderia dizer. Exceto talvez que a gente só pode ensinar o que a gente sabe e só pode induzir outros a gostarem de algo se a gente de fato gostar disso. O que tenho visto, cada vez mais, são estudantes de Letras que leem pouco ou não gostam de ler, que escrevem mal ou não gostam de escrever, que se profissionalizam precocemente por meio de bolsas de IC e de Mestrado. Que se julgam “pesquisadores” antes mesmo de dominarem um repertório mínimo.
Para esses, as dificuldades serão diferentes das que enfrentei. Também porque quando fui dar aulas no ensino médio a literatura ainda era uma matéria formal e destacada no currículo e ensinar a “escrever corretamente” era um objetivo defensável.


3- No tocante ao seu trabalho como editor, quando assumiu a direção da editora da Unicamp, quais eram seus principais alvos e, olhando em retrospecto, qual foi a sua marca na editora?

Eu tinha três objetivos, e acho que consegui – com o apoio de uma ótima equipe e um conselho editorial rigoroso – atingi-los. O primeiro era desprovincianizar a Editora da Unicamp. Quando assumi a direção ela não tinha prestígio, era localista, publicava majoritariamente professores da casa ou coleções organizadas por eles, os livros não eram bem cuidados, e esse catálogo fraco tinha, logicamente, uma presença quase nula nos currículos universitários, bem como nos prêmios e eventos literários. O segundo era melhorar o padrão editorial, seja na qualidade da preparação e correção do texto, seja no que diz respeito ao papel, desenho, capa etc. Por fim, queria que os livros da Editora fossem bem distribuídos e que, tendo qualidade de conteúdo e forma, projetassem o nome da nossa universidade, reforçando o seu lugar de ponta no sistema universitário brasileiro.
Creio que os objetivos foram todos atingidos: ganhamos muitos prêmios, resenhas elogiosas, participamos de inúmeras feiras e Bienais no Brasil e no exterior e, graças a isso, vendemos muitos livros e a Editora da Unicamp se tornou autossuficiente, sem demandar novos aportes de verba pública, pois faturava o suficiente para pagar seus funcionários, os custos industriais e os de distribuição.
Foram 11 anos de trabalho duro, que inclusive vieram em prejuízo da minha produção acadêmica. Mas foi a parte da minha vida na universidade que me deu mais satisfação e sentido de realização.


4- Agora vamos falar de sua obra literária. O que despertou em você a vontade de ser escritor e ter uma carreira voltada para a literatura? Quando começou a escrever, você mostrou os originais para alguém, algum interlocutor importante? O que o levou a publicar pouco a pouco seus poemas no perfil de Facebook, construindo uma relação muito próxima com seu público? Essa recepção imediata o agradou?

Eu escrevia, como todo mundo que gosta de escrever, desde muito cedo. Imitava os poemas que lia no livro dos Grandes Poetas Românticos. Depois, continuei a escrever poesia ao longo do ensino médio e da universidade. Como muitos alunos de Letras, também resolvi fazer Letras porque queria ler e escrever e achava que o curso podia me ajudar a escrever melhor. O que foi um engano. Houve, na verdade, certo travamento, de que depois foi um pouco difícil me livrar.
Tive a sorte de ter bons interlocutores, porém, desde sempre. Convivíamos em Matão, à volta dos livros e do xadrez, alguns rapazes empolgados com a literatura e a música. Além dos nossos mestres de xadrez, autodidatas apaixonados por alguma literatura e pela ópera, convivi muito estreitamente com duas pessoas que foram para mim um apoio inestimável, enquanto amigos e parceiros intelectuais. Seguiram também a carreira acadêmica e hoje são profissionais destacados: João Roberto Faria (que está na USP) e Luiz Gonzaga Marchezan (que está na UNESP). Além deles, desde muito cedo abusei da boa vontade do meu pai, que também fazia versos e compunha valsas e jogava um pouco de xadrez.
Quanto ao Facebook, devo começar dizendo que eu gosto de tecnologia. Fui um dos primeiros professores do IEL a usar computador de forma rotineira e não acho que tivesse feito tão rapidamente a edição crítica da Clepsidra se não tivesse montado um programinha para fazer a comparação das variantes (coisa que hoje o Word faz num clicar de mouse...). Comecei usar a comunicação eletrônica quando ainda não havia internet. Havia um sistema chamado BitNet e, para os iniciados, uma rede de físicos, chamada HepNet. Quando finalmente implantou-se a internet, ela não era acessível comercialmente. Não havia provedores. Por isso, junto com Edson Kenji Iura, criei, na velha máquina Turing do Instituto de Computação, uma lista de discussão sobre haicai, que existe até hoje: a haikai-l. Foi um deslumbre aquilo: poder debater em tempo real com gente de todos os cantos e poder publicar os poemas na tela, bem como estudos críticos e avaliação dos poemas ali postados.
Depois, criei uma homepage, sempre me valendo o pioneirismo da Unicamp, antes da difusão geral dos sites e provedores. E publiquei quase todos os meus artigos ali, recebendo retornos bem gratificantes.
Por fim, quando surgiu o Facebook, logo pensei que valeria a pena experimentar algo que não tinha havido antes, que é a possibilidade de não só receber resposta imediata (seja na forma do comentário, da mensagem inbox ou do simples “curtir”), mas ainda poder ver um pouco o perfil do público que os poemas iam selecionando.
Foi tão marcante a experiência que redigi um texto sobre a literatura no tempo e nos espaços digitais, que lerei em Coimbra, num curso de que sou assessor e se chama Materialidades da Literatura – e que no começo de maio deverá estar no meu blog.
Creio que passamos por um momento muito interessante: hoje toda a literatura clássica praticamente está acessível a custo quase zero; há máquinas de tradução para ler mensagens e em breve para ler literatura com o original ao lado; há sites e páginas pessoais de escritores e críticos; profusão de fóruns; revistas eletrônicas. E há o Facebook, onde tenho visto mais de um poeta que há tempo vinha sem publicar nada de repente estampar ali verso e prosa e dialogar animadamente com seus novos leitores.
Se isso será bom ou mau para a qualidade média da literatura não sei. Nem me importa saber por agora. Mas observar, sem preconceitos, o que está ocorrendo, isso me interessa muito. Daí que resolvesse fazer eu mesmo a experiência de publicar aos poucos, em primeira mão, o livro que depois sairia em papel, chamado Deste Lugar.


5- Você possui algum método de trabalho como escritor? Estabelece o enredo previamente, constroi anotações? Se sim, você arquiva essas anotações? Reelabora o que escreveu? Em que diferem ou como se aproximam sua escrita ficcional, sua escrita poética e seu trabalho crítico do ponto de vista do processo da escrita?

O processo é, em certo sentido, o mesmo. Não escrevo usualmente prosa. Acho a construção de um romance uma coisa muito tediosa. E não gosto muito, eu mesmo, de ler romances. Assim, escrevo algum tipo de narrativa breve. E poesia. Por isso não faço anotações, nem penso em enredo. É a mobilização das palavras que revela as inflexões do pensamento e dos sentimentos latentes.
Também faço mais ou menos assim com textos críticos: leio tudo o que se escreveu sobre o meu objeto, leio e releio o texto ou textos sobre o qual me proponho a falar, anoto as impressões, ficho tudo. Mas é só quando começo a escrever que vejo o caminho que se foi formando, o que eu tinha delineado como interpretação ou crítica sem saber exatamente que tinha feito. É a escrita e a exigência de clareza e concatenação que me mostra o que eu quero dizer, o que eu devo dizer, o que eu descubro que precisava ter dito. Por isso mesmo, os textos custam a exigir escrita. Eu sou muito lento, exasperantemente lento para começar a escrever. E escrevo depois rapidamente – quero dizer, comparativamente ao tempo de espera... E tudo de uma vez, sem plano. Foi assim com meu primeiro trabalho, que foi a dissertação de mestrado: sentei-me à máquina de escrever, pus uma folha, escrevi “Introdução” e prossegui escrevendo até que a forma do trabalho, a divisão em capítulos, os argumentos, se fossem ordenando. O que não coube, pus numa Adenda. E foi sempre assim, para o bem ou para o mal, porque não acho que meus textos sejam melhores ou piores do que a média – mas o tê-los escrito à minha maneira fez deles momentos bons, de revelação. Como quando a gente dá uma aula e descobre, ao falar, que sabia coisas que a gente não sabia que sabia.


6- Do conjunto da sua obra, qual seu livro preferido? Por quê?

Eu não saberia dizer, quanto aos livros de poesia. Mas, no geral, o livro que mais gosto de ter escrito foi o Haikai – Antologia e História. Talvez porque ali se juntaram experiências muito fortes, quais sejam a familiarização com o budismo e com a língua japonesa, a expectativa de construir uma vida minimalista (sou ainda do tempo dos hippies e fui macrobiótico radical...) e uma literatura vinculada diretamente à vida cotidiana. Talvez porque sinta que, com aquela apresentação e notas e com a tradução dos poemas, prestei um serviço à cultura literária do país. Seja por que motivo for, acho que esse será sempre o meu livro preferido.


7- Você acompanha as críticas e resenhas sobre seus livros? Como gostaria que seus livros fossem livros?

Não tive tantas resenhas assim. Mas gosto quando os livros são lidos com honestidade. Por isso, as críticas negativas não me aborrecem, quando vejo que foram feitas a partir de uma real experiência de leitura. O mesmo com meus artigos e textos críticos: realmente gosto e fico feliz quando um intelectual honestamente, como fez há tempos o Luis Gonçales Bueno com um artigo que escrevi sobre história literária, apresenta claramente a sua discordância em relação ao que eu pensei. Já não suporto bem o que infelizmente abunda em toda parte: a resenha de orelhada, para agradar ou ofender, e o texto mal intencionado, que instrumentaliza a crítica para um projeto de poder ou interesse de grupo.


9- Sua atividade como viajante e sua paixão por moto e estrada são também muito intensas. Você escreve sobre isso, como um diário ou crônicas?

A motocicleta me acompanha há décadas. No último, antes de me aposentar, tive de tirar todas as licenças a que tinha direito. Não pude pedir dispensa delas. Foi então que me dediquei à experiência de, pela primeira vez em muitos anos, passar um deles praticamente sem contatos intelectuais, sem livros, sem conversas sobre livros, sem escrita de textos sobre livros. Vivi um ano delicioso e revelador, que me permitiu ter, sobre o lugar onde vivi por mais de 30 anos, um olhar muito diferente. E o convívio com os muitos amigos motociclistas, as viagens, os pequenos incidentes foram a minha matéria de escrita – paralelamente aos poemas, que nunca parei de escrever. Dessas crônicas motociclísticas resultou um livro de pouco mais de 500 páginas, do qual foi impresso apenas um exemplar. E há mais umas 300, que darão em breve o segundo volume dessas histórias leves sobre tudo e sobre nada.



10- E agora vamos à construção de uma hipótese. Se você fosse professor de Educação Básica, como construiria seu curso de literatura para crianças e jovens. Ou, dizendo de outro modo, de quais princípios não abriria mão para este fim?

Eu não abriria mão do que eu gosto de ler. Porque tudo o que eu poderia mostrar a eles seria o meu gosto, meu entusiasmo. Se perceberem que aquilo faz sentido para mim, é importante para mim, prestarão atenção. Então só poderia fazer o que sempre fiz, em qualquer grau de ensino: leria textos em voz alta, comentaria, mostraria a sua dimensão maior. Não falaria em abstrato de escolas literárias, nem de forma literária. Só de coisas que fizessem sentido dentro da leitura – e isso incluiria certamente questões de língua e de forma. Nunca soube fazer de outra maneira. E sempre funcionou. Não sei se ainda funcionaria. Mas é o que eu acabaria por fazer.