Mostrando postagens com marcador máquina do mundo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador máquina do mundo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Haroldo de Campos: A máquina do mundo repensada



Funções e disfunções da máquina do mundo
O poeta Haroldo de Campos retoma assunto tratado por Camões e Drummond

[jornal O Estado de São Paulo, 24 de setembro de 2000]

O poema A Máquina do Mundo Repensada (Ateliê Editorial, R$ 30, 102 págs.) tem três partes, composto em versos decassílabos dispostos em terça-rima. A primeira parte retoma a representação da "máquina do mundo" em Dante, Camões e Drummond. A segunda expõe os desenvolvimentos da física e da cosmologia moderna (Galileu, Newton, Einstein e Poincaré), que permitiriam superar o modelo ptolomaico presente na construção metafórica daqueles poetas. Na terceira, que tem cerca de metade da extensão total do poema, o poeta propõe erguer-se à contemplação do universo concebido segundo a teoria do big-bang.
A forma estrófica, a divisão ternária, a emulação dos modelos e a vontade de apresentar uma visão totalizadora do mundo mostram que o poema é de matriz épica e que A Divina Comédia é sua referência principal. Como a Comédia, este poema se abre no momento do desvio da estrada estreita. Mas, enquanto Dante a perde sem perceber e o seu poema é o relato do périplo necessário à sua reconquista, o poeta de A Máquina, que confessa ser agnóstico e se declara presa da acídia generalizada no fim do milênio, quer voluntariamente extraviar-se da senda monótona do seu tempo, invejando, como antídotos, o perigo e a oportunidade de heroísmo que reconhece no universo de Dante e de Camões.
Na obra de Haroldo, A Máquina é o resultado de uma linha traçada pelo menos a partir de Signantia quasi Coelum (1979) e que passa por Finismundo, a Última Viagem e pelas traduções que o poeta fez de textos de Mallarmé, Dante, Homero e da Bíblia, que se incorporam pontualmente ao poema. Por ser o lugar de confluência dos principais vetores de força da poesia de Haroldo nos últimos 20 anos, é uma espécie de suma poética. E porque o poeta glosa o tema da senectude e da angústia da aproximação da morte, A Máquina parece propor-se também como testamento ou balanço literário.
Do ponto de vista da leitura, o primeiro impacto do poema é a sua versificação, pois a adoção da terça-rima não é pacífica. No que diz respeito à medida, há uma dúzia de versos claramente hiper ou hipométricos e dezenas de outros em que o metro só se mantém à custa de violências prosódicas notáveis. As rimas também expressam a mesma tensão entre modelo e atualização: se muitas são raras e obtidas pela quebra de vocábulos (como se de fato importasse a rima perfeita e, mais que perfeita, preciosa), outras são apenas toantes e uma parte nem sequer se sustenta dentro do esquema adotado. No que toca à sintaxe, ao mesmo tempo que o recorte das frases é independente do estrófico, a vontade de obedecer ao metro é a única explicação para a abundância de hipérbatos, enjambements e pausas no interior dos versos. A impressão geral da leitura é, assim, a de que há grande tensão entre a sintaxe, a prosódia e a tradição da forma estrófica adotada. Sem que se motivem as irregularidades e tensões, a tercina acaba por reduzir-se a um esquema abstrato, cuja validade se reduz ao seu valor icônico e cuja principal função é a de permitir a exibição de malabarismos tão simples quanto a quebra de sintagmas ou palavras para manter o metro e obter a rima.
Por outro lado, como as partes do poema são diferentes em escopo e assunto, e como são invariáveis a forma métrica, a sintaxe e a dicção em todas elas, cada uma produz um distinto efeito de sentido e de propriedade estética. No meu julgamento, a primeira, dedicada à exposição do antigo modelo cosmológico, é a melhor. E por incorporar questões, versos e cadências dos modelos o seu efeito geral é de pastiche. Já a segunda, de caráter expositivo e alusivo, é basicamente paródica. Na terceira parte, que é a apresentação da nova cosmologia, o predomínio de uma linguagem de cariz organicista, vitalista ou psicologizante produz o resultado mais curioso, pois o leitor deve optar entre entendê-la como construção irônica, ou senti-la como momento agudo de pura inconsistência entre a forma e o objetivo do discurso. Isso porque aí se encontra narrada a "gesta" do big-bang em termos e imagens como "ur-canto", "explosão parturiente", "berçário do universo", tempo-zero "ensandecido" e "ensimesmado", "mistério" que se cala, e o fim último da contemplação é a visão da abertura do "proscênio" e a contemplação do "grande bangue", a cujas portas o poeta se dirige com a palavra mágica de uma velha história: "Abre-te, sésamo!" Já o "pós-big-bang" é traduzido na imagem do "comburente/cristal em torno fluindo do sublime/trono divino" e, por fim, na da "roda sefirótica", ao lado da qual partículas subatômicas são como anjos: "exsurgem", "louvam a face e morrem de inefável/deslumbre".
Schenberg, Benjamin e o misticismo judaico, sobrepostos, produzem aqui um discurso semelhante ao que Haroldo dedicara já em 84 ao físico, depois que juntos visitaram umas ruínas maias. Ali, a sabedoria resultante da junção de física e poesia, ofertada à contemplação na estante e no "marxismo zen" de Schenberg, era uma flor de lótus, de onde "um bodisatva nos dirige o seu olhar transfinito". Nos 16 anos que separam um poema do outro, apenas se ampliou o substrato místico, que em A Máquina é mais eclético e sempre presente. De tal forma que, embora o projeto intelectual seja proposto como ascese agnóstica (148.3), o poema só parece existir porque continuamente se alimenta da linguagem da gnose que recusa.
Pudesse ser lida como uma construção irônica, ou pelo menos auto-irônica, essa parte maior do poema ficaria mais interessante. Mas isso não é possível. Logo após a comparação das partículas com os anjos, incorpora-se a esse poema o passeio pelas ruínas de Palenque, que deu origem ao de 84. Mas agora a serenidade da "mirada azul do mário" acaba contraposta ao tema central de A Máquina, a contemplação ou a aproximação da morte. A narração do passeio conduz à lembrança do terror causado por um tremor de terra no momento da visita ao túmulo do rei maia. E ela reintroduz e reforça o topos do senex, que se desdobra na exposição da falência do esforço para "perquirir o pêlo no ovo". Contraposto ao físico de olhar búdico que resolve as tensões entre a ciência e a poesia, o poeta se descobre como lugar de inquietação e de insegurança quanto ao "desenigmar-se" do universo e da própria vida. Exposto o contraste, a transição para o final é rápida e o anseio cosmogônico se resolve em abdicação, reduz-se às vãs indagações com que o poema se encerra. Num texto que visa a expor em terça-rima a máquina do mundo segundo a cosmofísica atual, esse desenlace, a não ser irônico, ou é farsesco ou é apenas a confissão de que o velho não consegue dizer o novo, mas apenas apontá-lo como algo que não cabe nas metáforas com que se tenta apreendê-lo.

A conjunção pouco convincente da antiga forma e da nova cosmofísica, e a brusca interrupção do que era para ser a narração de uma "gesta" cósmica por um episódio biográfico que tem a função de um memento mori, leva-me a pensar que a melhor imagem para definir esse poema é o verso "à moira ambígua um tropo afaga: o oxímoro". Um oxímoro métrico, imagético e conceitual, que afaga e conjura, tematizando-o repetidamente, o destino inevitável do "cammin di nostra vita".
É dos momentos em que se dá essa tematização - vazada no topos do senex que se encontra no final do caminho (5.2: "Dante com 35 eu com 70") - e não do resumo mais ou menos dessorado de livros de divulgação do conhecimento físico atual, ou do artesanato algo furioso (e freqüentemente de mau gosto) da palavra, que o poema extrai a sua força. Esta, apesar do grande dispêndio aparente de energia construtiva, é apenas patética.