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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Cassiano Ricardo

[Jornal16]

Cassiano Ricardo ainda espera uma releitura
- publicado no jornal O Estado de São Paulo, 4/2001 -




            Meninos, poetas & heróis - aspectos de Cassiano Ricardo do Modernismo ao Estado Novo, de Luiza Franco Moreira (Edusp, 2001, R$ ), enfoca a obra de um poeta a que a crítica recente tem dado pouca atenção. No prefácio do livro, Antonio Candido chama a atenção justamente para esse ponto, destacando a escolha do assunto.
O livro se desdobra sobre três conjuntos textuais: o poema Martim-Cererê, de 1928; o ensaio Marcha para Oeste, de 1940; e artigos de Cassiano Ricardo, publicados no jornal A Manhã, dirigido pelo poeta de 1941 a 1945. Seu objetivo, que fundamenta a escolha desses textos, explicita-se na p. 29: "reconstruir e criticar a dimensão ideológica do poema modernista de maneira abrangente". Ou, como diz mais adiante, reconstituir "a coerência notável entre a obra do poeta, o trabalho do ensaísta e o do jornalista" e "o papel decisivo - e também inaceitável - que este escritor desempenhou na vida cultural brasileira dos anos Vargas" (p. 33).
            O livro de Luiza Moreira tem assim uma tese clara: para ela, não há dúvida de que o Cassiano de Marcha para Oeste já estava dentro do Cassiano de Martim Cererê e que, portanto, este não foi mudado naquele por efeito de algum caso incidente. O subtítulo do volume dessa maneira ganha força: o "inaceitável", o "intolerável" ideólogo estado-novista e o poeta de 28 não são diferentes, nem contraditórios, mas aspectos de uma totalidade harmônica.
            Um mérito do trabalho de Luiza Moreira é reconhecer a força poética do livro de Cassiano Ricardo. É certo que crê tratar-se de escritor de dimensões medianas ("escreveu versos que estão na média do trabalho produzido pelos modernistas nos anos vinte") e indefensável do ponto de vista ideológico ("o escritor de convicções autoritárias e bem sucedido da primeira metade dos anos 40 parece mesmo merecer o silêncio"). Mas isso não a impede de atestar que Martim Cererê tem "uma capacidade duradoura de criar o seu próprio contexto", nem de identificar nessa capacidade uma força perigosa: "uma leitura de Martim Cererê reativa, inevitavelmente, esta ideologia, e sempre corre o risco de reproduzi-la" (p. 168). Daí que o escopo último do ensaio, no que diz respeito ao poema, tenha sido proceder a uma espécie de exorcismo do seu caráter ideológico: "foi necessário esse percurso através da ideologia que este texto pôs em circulação e o exame direto de suas repercussões desastrosas para desarmar o que ele guarda até hoje de ameaçador. Como resultado desta discussão, agora é possível encarar Martim Cererê como um poema, sem buscar distingui-lo de seu tema ou de seu passado. Podemos apreciar, enfim, os acertos literários deste poema modernista e admitir, também, o que faz o encanto deste texto ingênuo, exuberante e derramado" (p. 171).
Mas de que maneira se processa esse esconjuro? Pela análise do texto do poema, separando os seus "acertos literários" dos seus problemas? Identificando na ordenação das peças que o compõem e no interior de cada uma as questões que interessam à identificação do poder persuasivo e do caráter da ideologia presente na obra? Infelizmente, não.
A análise textual é o ponto mais fraco do livro, a começar pela terminologia pouco rigorosa. O conceito principal utilizado nos comentários, o de "falante do poema", responde por boa parte dos problemas de leitura e interpretação. Por exemplo, na página 52, lê-se: "Vários poemas do livro chamam atenção para o falante através do uso da primeira pessoa. Vamos considerar três deles, que servem para ilustrar todos os seus aspectos: uma figura para a nação em 'Brasil-Menino', o falante aparece diretamente como o poeta em 'Meus oito anos' (1928: pp. 32-33), enquanto em 'A minha xícara de café' (1928, pp. 88-90) ele se mostra como o 'eu' poético sem marcas da convenção lírica" [sic]. Pouco adiante, lê-se: "Ocasionalmente, este falante toma forma clara até em poemas compostos inteiramente em terceira pessoa"; e ainda: "O tom profético da voz em primeira pessoa sugere que aqui o falante aparece principalmente como o poeta". Por fim, na p. 60, lê-se que "o recurso ao falante mais uma vez abre caminho para que o poema se dirija ao leitor como adulto".
A contraparte do "falante" -- o leitor previsto -- não é mais bem descrita. Para dar um só exemplo, ele é, na mesma passagem, um "adulto imaturo, disposto a ser persuadido por um interlocutor infantilizado" e um "adulto de poder e privilégio" (p. 51). Dialética essa que se resolve na síntese da p. 64: "Se Martim Cererê quer apresentar seu projeto nacionalista de maneira convincente, necessita do leitor infantilizado mas adulto que sua retórica evoca".
Trabalhando nesse nível de abstração, o ensaio de Luiza Moreira acaba por não apresentar ao leitor senão o comentário superficial de uns poucos poemas. Isso enfraquece a sua reivindicação principal, que é a de que seus julgamentos ideológicos se respaldam em análises textuais. Também a enfraquece a pouca atenção que dá à história do livro, transitando de forma pouco prudente entre várias edições. Ora, Martim Cererê foi uma obra incessantemente trabalhada durante toda a vida do poeta. A ponto de a primeira e a 12ª edição (a de 1972, última em vida) apresentarem em comum, sem alterações de grande monta, apenas 6 poemas. Não é possível, portanto, falar desse livro como se fosse um texto estático, nem tratar das suas partes sem uma cuidadosa identificação da edição, pois além do texto diferente, há que considerar a diferente posição seqüencial, que implica diferença de sentido. Por fim, é difícil compreender porque a autora, interessada basicamente na ideologia de Ricardo, desprezou a consideração atenta das mudanças que o poeta foi efetuando no texto das várias edições. Principalmente as modificações que introduziu nas 6.ª e 7.ª edições, publicadas em 1938 e 1944 (logo antes e pouco depois, portanto, da Marcha para Oeste; e contemporânea, a 7.ª, da sua atividade como diretor de A Manhã).
A autora preferiu, porém, outro caminho: mostrar como Cassiano Ricardo, doze anos depois de publicar Martim Cererê, o promoveu publicitariamente e o reescreveu em prosa. A perspectiva não é talvez a de maior relevância literária, mas poderia resultar num ensaio interessante, não fosse a fragilidade geral da primeira parte e o pequeno rendimento das análises textuais das duas últimas. Por conta desses problemas, o saldo da leitura não é grande: como trabalho de análise histórica e sociológica, o livro de Luiza Franco Moreira não avança em relação à bibliografia em que se apoia; como trabalho de crítica literária, pouco revela sobre eficácia poética ou argumentativa dos textos de Cassiano Ricardo e quase nada tem a dizer sobre Martim Cererê, seja quanto à sua estrutura, força simbólica e situação na poesia brasileira do seu tempo, seja quanto à história da sua escrita, publicação e recepção pelo público e pela crítica.